sexta-feira, 28 de abril de 2017

241 e contando!

Descobri Mother's Cake semanas atrás, graças ao Terreiro do Heavy Metal (uma das páginas que faz o facebook valer a pena). Na precisão cirúrgica deles:
A indicação de hoje é de uma das bandas mais fodaças que surgiu nos últimos tempos, para você que gosta de um som cheio de groove. Difícil dizer qual o gênero dos caras. Mas você ouvirá uma mistura muito do caralho de Stoner Rock, Prog Rock com nuances de Funk e Soul. Incrível como conseguem transmitir a dose equilibrada de feeling e técnica. SE LIGA NESSE BAIXO PUTA QUE PARIU!!!
E olha que isso é ao vivo... rsrs
E aí entra este vídeo aqui:


Sou o responsável pelas últimas 241 visualizações, sem brincadeira. Consegui dar uma pausa quando as torrentes trouxeram para o meu media player o No rhyme no reason, novo disco dos caras que tá aí pra enriquecer esse 2017. E que trampo encaixado, tá louco!

Do novo: 

terça-feira, 18 de abril de 2017

Logan descansa

Vi. 

O animal que se importa, agora cansado e indiferente. Está também perdido (como no primeiro X), mas ainda sobre os pés, de algum modo, por causa de seu pai por tabela, Charles — que, também destroçado, ainda consegue ser um mentor para um herói que recusa o chamado, o último chamado. Há um passado oculto ali, com eles dois. Na HQ, Wolverine se aposentou ao assassinar "acidentalmente" toda sua família de mutantes. No filme, talvez Charles, já debilitado mentalmente, tenha sido o infeliz, matando os alunos com uma daquelas rajadas psiônicas, as mesmas que Logan é capaz de resistir — o que justificaria a sobrevivência apenas dos dois, naquele futuro não tão distante e poeirento. Eles se cuidam, mas não exatamente com afeto. É aqui que está o verdadeiro espírito Adulto do filme. Claro que algumas cabeças rolam e as empaladas são boas de matar, mas a violência não é nada perto da química dramática dessa família quebrada, tão bem interpretada: Logan enterrando Charles é eloquente com os olhos, com a boca trêmula, com a falta de ar — para logo depois despejar uma fúria de golpes no carro que não funciona; Logan e Laura, uma discussão atravessada no carro, uma discussão que ela só ganha por ser jovem e ele cansado demais para debater. Ela, aliás, consegue ser muito interessante justamente por ser, mesmo, uma criança (apesar de mortal). E na sua teimosia infantil, faz com que Logan aceite a aventura última — mas ele não vai de boa vontade, é mais como se estivesse dizendo um grande "foda-se" ao ligar o carro e partir. Depois, de novo no meio de uma família (as crianças mutantes), parece que ele recupera um pouco da empatia, o lado humano, o lado que Charles vinha trabalhando nele quando eram uma equipe. Apesar de Logan não mencionar Charles ou qualquer coisa que seja, pequena, mínima, do seu passado, é possível sentir que o passado está lá, com o personagem, mas não causando dor — ele meio que já está imune à dor, mental, física, seja qual for. Ele confessa que sonha com os que matou, mas confessa de forma tranquila, como quem aceita o que é e o que faz de melhor. Esse passado invisível estabiliza o personagem antes dele se jogar no retorno, agora sim abraçando a aventura... Desde o início o estigma da morte o cerca, a questão é como o cerco fecha. Morrer, mas não se matando com uma bala na cabeça. Não! Morrer, sim, mas no modo berserk, no meio do banho vermelho. Ele não tem mais casa ou mulher para retornar, então o retorno aqui é à sua origem assassina — e que genialidade meta o antagonista ser logo um clone selvagem, mais jovem e imparável! Um confronto com o eu, do começo ao fim — e não é assim mesmo em todos os arcos do personagem? 

Agora, finalmente, o confronto acabou. Logan descansa.

QUE FILME!

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Como acham o caminho de volta?

Observam.

Antigamente acontecia em cavernas: os místicos acreditavam que o teste deveria ser feito pelo calor e pela escuridão e pelo silêncio absoluto dos mais baixos quartos da Mãe Terra. Tolos. Isso foi há muito, os mais velhos mamavam quando assim o era. Hoje, há sabedoria nos ritos. Há luz. Não é uma questão de sobreviver, mas de observar. O que você pode observar metido numa caverna escura e quente, totalmente preservado dos açoites brancos do céu deste reino? 

Hoje os meninos são guiados em trenós pelos sábios das montanhas. Por dias. Vinho e carne seca, apenas. Tentam manter a compostura enquanto abraçam um único camisão de lã. Vendados, para que não saibam o caminho, para que aprendem a escutar. Sabia que o vento soa diferente conforme o itinerário que traça? Há música no movimento do ar e eles descobrem isso logo na ida. No silêncio das cavernas, não saberiam nenhuma verdade do mundo de fora, do mundo real onde as lutas são travadas. Então, finalmente, são largados na Montanha Quebrada, com pouca comida e uma faca. O rito tem início.

Você pergunta como eles acham o caminho de volta. Eu repito: eles observam. Os mais inteligentes irão encontrar abrigo e esperar pacientemente um sorriso do céu invernal, o único e verdadeiro deus. Irão aguardar a canção na ventania e interpretar no compasso o endereço — isso tudo enquanto dedos intrusos tentam roubar seu calor interno pelos pés e pelos flancos, enquanto o hálito do Inverno Invisível conspira para fazer deles uma pedra. Precisam estar com os olhos atentos para, no momento certo, identificar, atrás dos cobertores celestes, o morto sol que não toca essa parte do mundo. Mas ele, esse morto, está lá, em algum lugar distante, e o galardão para quem o espera aparecer, ainda que por um instante no tempo, é orientação. É como começam a voltar: pela orientação primária do céu, desde que bem observada.

Muitos não esperam, não observam. Retornam à lama cobertos pela geada depois de dias de caminhada a esmo, sem em nenhum lugar chegar. Não há espaço para adivinhações aqui, a sorte não existe — é encontrar o caminho ou perecer. Alguns acham a coragem última na ponta da faca e abrem as próprias gargantas antes de receber o abraço branco. São encontrados pelos sábios das montanhas na próxima patrulha e os jogos fúnebres são prestados, aqui, com os familiares e os mais novos que ano que vem terão uma chance de serem homens. Para estes, fica a lição do que separa um homem morto de um vivo: observação. 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Coração peludo, de Plínio Camillo

Livro de contos? Essa é a ideia, cada capitulo uma história isolada. Mas pra mim, não sei, foi como ler um romance, pois perdi o sono sem conseguir parar de virar as páginas — até hoje não houve livro que eu lesse mais rápido, em uma única noite. O mais incrível é a disposição pra começar uma segunda rodada agora mesmo! Essas coisas a gente recomenda, não tem jeito. 

Coração peludo é agilidade, é a arte de contar muito com pouco. Não, não pouco — o necessário, sem rodeios. Desconstrói, recria. Usa um repertório milionário de expressões e referências que não tem como não sacar os significados, encaixados com humor, muito humor, humor impossível de negar o riso. E o que não está exatamente descrito, o autor faz com que você visualize perfeitamente com duas ou três palavras, fácil, como se você estivesse diante de uma pintura.

Coração peludo é a vida de um sujeito meio pilantra, meio herói, em 47 contos. 

E Plínio Camillo, do nada, já é um dos meus escritores favoritos.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Enquanto isso, no final de Black Sails

O que fazer com os indesejados?, os homens que não se enquadram, que a civilização deve podar de sua videira para proteger o sentido do ser. Toda civilização, desde a mais antiga, tem sobrevivido desta forma: definindo-se pelas coisas que ela exclui. Enquanto houver progresso, sempre haverá restos humanos em seu rastro, do outro lado, observando. E cedo ou tarde alguém deve responder a questão: o que acontece com eles? Em Londres, a solução é chamá-los de criminosos. Jogá-los em um buraco profundo e escuro e esperar que nunca tenham um fim. Eu argumentaria que a justiça demanda que façamos melhor. Que a civilização não é julgada por quem ela exclui, mas por como ela trata os excluídos. 
— prólogo do último episódio 

Eles pintam o mundo cheio de sombras e dizem às crianças para ficarem perto da luz — a luz deles. Suas razões, seus julgamentos. Porque na escuridão, há dragões. Mas não é verdade. Podemos provar que não é verdade. No escuro há descobertas. Há possibilidades. Há liberdade... no escuro.
— Flint

O conto é verdadeiro. O conto é falso. Quanto mais o tempo passa, isso importa cada vez menos. Os contos que queremos acreditar são os que sobrevivem, apesar da agitação, transição e progresso. São esses contos que moldam a história. E o que importa se são verdadeiros ou não? Eles encontram a verdade em sua maturidade, que é uma virtude em um homem, e não deve ser menor que as coisas que o homem cria. 
— Rackham

Black Sails pode ser uma série de violência, de nudez. Pode ser uma série de rebeldia contra um sistema, uma série sobre como forjar lealdade em meio à ladrões, sobre o choque entre objetivos coletivos e individuais. Pode ser um show de retórica mais explosiva que os canhões chovendo fogo e os cascos dos navios estilhaçando e rangendo. Ela é o conto, maleável — e isso significa que pode ser o que você quiser interpretar. 

Pra mim, Black Sails é sobre como o conto — essa narrativa que o homem cria — pode moldar toda uma forma de viver, uma crença, uma comunidade. Fatos e ficção se juntam num redemoinho para que um objetivo na sociedade seja alcançado. A verdade não importa, a verdade é para poucos. A verdade é a escuridão onde há dragões, a escuridão que deve ser combatida, a escuridão que define... a luz. Na luz, há tudo o que é preciso para viver bem, para viver do jeito "correto" — e quem liga se o que há na luz, se o que nos é contado, é verdade ou falsidade? 

Black Sails é sobre como uma história pode se tornar História.

sábado, 1 de abril de 2017