sábado, 23 de setembro de 2017

Não basta...

... lançar um dos melhores álbuns do ano. Tem que encaixar um EP absurdo logo depois. Nem sei o que comentar dessas quatro faixas aí, um solo melhor que o outro, uma bagunça de melodias. Mastodon é outro nível de música, tá louco!

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Breve registro sobre chutar e acertar a trave

Jogava bola. Faz tempo isso, um tempo tirano. Sempre de brincadeira, de modo que arrematar e acertar a trave era uma espécie de coisa boa, um quase que era comemorado como se antecipando o glorioso momento de um futuro arremate de mira mais certa. 

Na literatura, nem sei o porquê de demorar tanto pra submeter textos à avaliação de outros, me atirar em concursos literários. Tempo tirano por demais, sem negócio, se desse trocaria um rim pela chance de regressar, começar mais cedo a dar chutes, testar a pontaria. Enfim. Dia desses arrisquei uma brincadeira chamada Você está na cadeira do dentista, no 3º Prêmio Escriba de Crônicas 2017, e acertei a trave numa menção honrosa! 

A comemoração tá como um gol feito!

domingo, 17 de setembro de 2017

Por que queimamos nossos mortos?

Há quem pense que é um gesto para o corpo, um jeito nobre de impedir a corrupção dos vermes da terra. Isso porque houve épocas em que o costume estrangeiro de plantar os mortos como sementes havia infectado a mente deste povo. Mas não, não é essa a causa das chamas, que se foda o corpo, já não é mais do que uma sombra da pessoa em vida. O gesto é para a alma. O fogo purifica e a alma deve ser purificada. 

Quando vivo, o fogo é um flagelo para o indivíduo. Dor na carne, essa prisão. Foi o tempo que houve homens capazes de andar sobre o fogo, capaz de comer e cuspir chamas, foi o tempo em que a purificação poderia ser feita ainda em vida, a alma, essa arte não esculpida, era uma só com o fogo. Hoje, não há mais feitos grandiosos, a alma tomou a forma desse mundo acabado e cinzento, a forma da sociedade cheia de defeitos e injustiças. Hoje, há morte. E nela a alma finalmente pode retornar ao caminho do fogo.

E é por isso que queimamos nossos mortos. 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O recital, de Luis Fernando Verissimo

Uma boa maneira de começar um conto é imaginar uma situação rigidamente formal — digamos, um recital de quarteto de cordas — e depois começar a desfiá-la, como um pulôver velho. Então vejamos. Um recital de quarteto de cordas.

O quarteto entra no palco sob educados aplausos da seleta plateia. São três homens e uma mulher. A mulher, que é jovem e bonita, toca viola. Veste um longo vestido preto. Os três homens estão de fraque. Tomam os seus lugares atrás das partituras. Da esquerda para a direita: um violino, outro violino, a viola e o violoncelo. Deixa ver se não esqueci nenhum detalhe. O violoncelista tem um grande bigode ruivo. Isto pode se revelar importante mais tarde, no conto. Ou não.

Os quatro afinam seus instrumentos. Depois, silêncio. Aquela expectativa nervosa que precede o início de qualquer concerto. As últimas tossidas da plateia. O primeiro violinista consulta seus pares com um olhar discreto. Estão todos prontos, o violinista coloca o instrumento sob o queixo e posiciona seu arco. Vai começar o recital. Nisso...

Nisso, o quê? Qual a coisa mais insólita que pode acontecer num recital de um quarteto de cordas? Passar uma manada de zebus pelo palco, por trás deles? Não. Uma manada de zebus passa, parte da plateia pula das suas poltronas e procura as saídas em pânico, outra parte fica paralisada e perplexa, mas depois tudo volta ao normal. O quarteto, que manteve-se firme em seu lugar até o último zebu — são profissionais e, mesmo, aquilo não pode estar acontecendo — começa a tocar. Nenhuma explicação é pedida ou oferecida. Segue o Mozart.

Não. É preciso instalar-se no acontecimento, como a semente da confusão, uma pequena incongruência. Algo que crie apenas um mal-estar, de início e chegue lentamente, em etapas sucessivas, ao caos. Um morcego que posa na cabeça do segundo violinista durante um pizzicato. Não. Melhor ainda. Entra no palco um homem carregando uma tuba.

Há um murmúrio na plateia. O que é aquilo? O homem entra, com sua tuba, dos bastidores. Posta-se ao lado do violoncelista. O primeiro violinista, retesado como um mergulhador que subitamente descobriu que não tem água na piscina, olha para a tuba entre fascinado e horrorizado. O que é aquilo? Depois de alguns instantes em que a tensão no ar é como a corda de um violino esticada ao máximo, o primeiro violinista fala:

— Por favor...

— O quê? — diz o homem da tuba, já na defensiva. — Vai dizer que eu não posso ficar aqui?

— O que o senhor quer?

— Quero tocar, ora. Podem começar que eu acompanho.

Alguns risos na plateia. Ruídos de impaciência. Ninguém nota que o violoncelista olhou para trás e quando deu com o tocador de tuba virou o rosto em seguida, como se quisesse se esconder. O primeiro violinista continua:

— Retire-se, por favor.

— Por quê? Quero tocar também.

O primeiro violinista olha nervosamente para a plateia. Nunca em toda a sua carreira como líder do quarteto teve que enfrentar algo parecido. Uma vez um mosquito entrou na sua narina durante uma passagem de Vivaldi. Mas nunca uma tuba.

— Por favor. Isto é um recital para quarteto de cordas. Vamos tocar Mozart. Não tem nenhuma parte para a tuba.

— Eu improviso alguma coisa. Vocês começam e eu faço o um-pá-pá.

Mais risos na platéia. Expressões de escândalo. De onde surgiu aquele homem com uma tuba? Ele nem está de fraque. Segundo algumas versões veste uma camisa do Vasco. Usa chinelos de dedo. A violista sente-se mal. O violinista ameaça chamar alguém dos bastidores para retirar o tocador de tuba a força. Mas ele aproxima o bocal do seu instrumento dos lábios e ameaça:

— Se alguém se aproximar de mim eu toco pof!

A perspectiva de se ouvir um pof naquele recinto paralisa a todos.

— Está bem — diz o primeiro violinista. — Vamos conversar. Você, obviamente, entrou no lugar errado. Isto é um recital de cordas. Estamos nos preparando para tocar Mozart. Mozart não tem um-pá-pá.

— Mozart não sabe o que está perdendo — diz o tocador de tuba, rindo para a platéia e tentando conquistar a sua simpatia.

Não consegue. O ambiente é hostil. O tocador de tuba muda de tom. Torna-se ameaçador:

— Está bem, seus elitistas. Acabou. Onde é que vocês pensam que estão, no século XVIII? Já houve 17 revoluções populares depois de Mozart. Vou confiscar estas partituras em nome do povo. Vocês todos serão interrogados. Um a um, pá-pá.

Torna-se suplicante:

— Por favor, só o que eu quero é tocar um pouco também. Eu sou humilde. Não pude estudar instrumento de cordas. Eu mesmo fiz esta tuba, de um Volkswagen velho. Deixa...

Num tom sedutor, para a violista:

— Eu represento os seus sonhos secretos. Sou um produto da sua imaginação lúbrica, confessa. Durante o Mozart, neste quarteto antisséptico, é em mim que você pensa. Na minha barriga e na minha tuba fálica. Você quer ser violada por mim num alegro assai, confessa...

Finalmente, desafiador, para o violoncelista:

— Esse bigode ruivo. Estou reconhecendo. É o mesmo bigode que eu usava em 1968. Devolve!

O tocador de tuba e o violoncelista atracam-se. Os outros membros do quarteto entram na briga. A plateia agora grita e pula. É o caos! Simbolizando, talvez, a falência final de todo o sistema de valores que teve início com o iluminismo europeu ou o triunfo do instinto sobre a razão ou ainda, uma pane mental do autor. Sobre o palco, um dos resultados da briga é que agora quem está com o bigode ruivo é a violista. Vendo-a assim, o tocador de tuba para de morder a perna do segundo violinista, abre os braços e grita: "Mamãe!"

Nisso, entra no palco uma manada de zebus.

sábado, 9 de setembro de 2017

Teoria do caranguejo, de Julio Cortázar

Tinham construído a casa no limite da selva, orientada para o sul evitando assim que a umidade dos ventos de março se somasse ao calor que a sombra das árvores atenuava um pouco.

Quando Winnie chegava

Deixou o parágrafo no meio, empurrou a máquina de escrever e acendeu o cachimbo. Winnie. O problema, como sempre, era Winnie. Quando tratava dela a fluidez se coagulava numa espécie de

Suspirando, apagou numa espécie de, porque detestava as facilidades do idioma, e pensou que não poderia continuar trabalhando até depois do jantar; as crianças logo iam chegar da escola e ele teria que preparar o banho, fazer a comida e ajudá-las nos seus

Por que no meio de uma enumeração tão simples havia como um buraco, uma impossibilidade de continuar? Era incompreensível, pois tinha passagens muito mais árduas que se construíam sem nenhum esforço, como se de algum modo já estivessem prontas para incidir na linguagem. Obviamente, nesses casos o melhor era

Largando o lápis, pensou que tudo se tornava abstrato demais; os obviamente os nesses casos, a velha tendência a fugir de situações definidas. Tinha a impressão de estar se afastando cada vez mais das fontes, de organizar quebra-cabeças de palavras que por sua vez

Fechou abruptamente o caderno e saiu para a varanda.

Impossível deixar essa palavra, varanda.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

10 anos de Silent Waters

O discão conceitual inspirado no Lemminkainen, personagem da Kalevala, está fazendo aniversário. Pesado e melódico, com os melhores guturais do mundo do metal, uma infinidade de guitarradas bem feitas, e o teclado, ah, as teclas comendo soltas aqui. É um daqueles trabalhos breves que te inspira a ouvir mais. Destaque para as violadas em "Enigma", a ira de "A Servant", a melodia de "I Of Crimson Blood", e, claro, todo o poder que emana da "Towards And Against". 

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Odin disse:

O gado morre,
Os parentes morrem. 
Todo homem é mortal, 
Mas eu sei de uma coisa 
que não morre jamais:
A glória dos grandes feitos. 
— Hávamál, As Palavras do Altíssimo

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Childe Roland à Torre Negra chegou, de Robert Browning

I
Primeiro pensei: ele mentiu a cada sentença
O coxo encanecido, com olhos cheios de malícia
Ávidos por ver nos meus de sua mentira a perícia
E com a boca sem conter a alegria intensa
Que repuxava seus cantos na crença
De que o predador outra vez se sacia.

II
Qual outro seria o intuito, com seu cajado?
Qual senão emboscar e laçar os andarilhos
Que porventura o encontram pelos trilhos
E vêm pedir direção? Que risada má eu teria escutado,
quem deixaria meu epitáfio marcado
por diversão nos terrosos caminhos,

III
Se ao seu conselho eu devesse me desviar
Para aquele curso sinistro que, é sabido,
Esconde a Torre Negra? Porém eu, de boa-fé imbuído,
Tomei o indicado caminho, sem orgulho demonstrar
Nem esperança rediviva ao ver o fim se aproximar,
Mas sim gratidão pela idéia de algum fim existir.

IV
Pois, se depois de o mundo todo vagar
Se na minha busca ano a ano estendida
Minha esperança tornou-se uma sombra encardida
E incapaz de com o gozo ruidoso da vitória lidar,
A festa no meu coração eu mal pude refrear
Quando este entreviu a batalha perdida.

V
Assim como um doente à beira da morte
Já parece morto, e pressente o pranto fatal,
e recebe de todos a despedida amical,
E escuta ao longe a saída de outro consorte
Para respirar lá fora, (não se muda a sorte,
ele diz, e o pesar não se alivia com o golpe final)

VI
Enquanto outros debatem junto às covas
Se há espaço para o caixão e que hora
É a mais apropriada para levá-lo embora,
Sem esquecer dos estandartes, hinos e estolas,
O homem ouve cada uma dessas estórias
E, respeitando tanta candura, quer partir sem demora.

VII
Assim, já sofro há tanto nessa jornada
Já ouvi do fracasso o vaticínio e a confirmação
Para tantos e tantos companheiros da Afiliação
de cavaleiros que da Torre Negra atendem a chamada,
Que falhar como eles me pareceu a coisa acertada
E a única dúvida era: não seria essa minha função?

VIII
Tão quieto quanto o desespero eu dei as costas
àquele coxo odioso, abandonando sua via
e adentrando o caminho apontado. Todo o dia
havia sido lúgubre, e as sombras, sobrepostas,
fechavam-se a minha volta, mas uma olhadela torta,
rubra e carrancuda, ele lançou à planície todavia.

IX
Por Deus! Logo assim que me encontrei
Jurado à planície, após não mais que uma passada,
Parei para um último olhar à segurança da estrada
E nada mais havia, só a planura cinza avistei
Nada senão a vastidão sob o céu do astro rei.
Sem mais a fazer, decidi seguir caminhada.

X
Assim, fui adiante. E creio nunca ter visto
Natureza tão miserável e ignóbil, onde nada medra:
Pois as flores — ou mesmo um cedro entre a pedra,
Embora murchando como pela sua lei previsto,
Mesmo no abandono perduram, pensaria você;
Descobrem-se tesouros quando a casca quebra.

XI
Mas não! Penúria, feiura, inércia
Em condição estranha está essa parte da terra
"Veja, ou feche os olhos", a Natureza berra
"Não há escapatória: ela é de todo néscia,
Só o fogo do Julgamento Final trará a panaceia,
Calcinando o chão e livrando os presos que ele cerra."

XII
Se havia ali alguma ressequida haste de cardo,
Seus colegas não se achavam, e o talo estava decepado.
O que fez aqueles buracos e rasgos no folhado
escuro e duro da bardana, tão machucado
que era impossível pensá-lo regenerado?
Era preciso que um bruto as tivesse pisoteado.

XIII
Quanto à relva, era como o cabelo escasso
Dos leprosos; magras lâminas secas na lama
Que parecia ter por baixo uma sanguínea trama.
Um cavalo cego e rijo, ossos à vista, lasso,
Parava ali, estúpido; havia chegado àquele pedaço:
Rebento que o garanhão do diabo não reclama!

XIV
Vivo? A meu ver poderia muito bem já ter partido,
Com seu pescoço rubro, descarnado e macilento.
E os olhos fechados por sob o pelo bolorento;
Nunca o grotesco andou à desgraça tão unido;
E jamais senti por criatura ódio tão ardido:
Ele deve ser mau para merecer tal sofrimento.

XV
Fecho meus olhos, e os volto para o meu coração,
Como um homem que pede vinho antes de lutar,
Visão mais feliz, de outro tempo, eu quis saborear
Para ficar mais apto a encarar minha missão.
Pensar antes, lutar depois, eis do soldado o bordão:
Um vislumbre do passado pode a tudo acertar.

XVI
Mas não! Imaginei de Cuthbert a face corada
Em meio a seu adorno de cachos dourados,
Querido amigo, eu quase o senti laçar meus braços
Para me colocar a postos na caminhada
Como ele sempre fez. Ai, noite desgraçada!
O fogo no meu coração se apagou, deixando-o gelado.

XVII
Giles então surge — ele que é da honra a alma,
Leal como há dez anos, quando tornou-se cavaleiro
Capaz de ousar tudo que ousaria um homem verdadeiro
Mas — argh — a cena se modifica! Um carrasco infama
seu peito com um aviso que para todos informa:
Desprezado e amaldiçoado; traidor rasteiro.

XVIII
Do que um passado assim, melhor este presente
Que eu volte então para meu caminho triste
Nenhum som, nada que se veja ao longe em riste.
Aparecerá morcego ou coruja após o poente?
Perguntei quando algo na planície descrente
capturou e dominou meu pensamento num despiste.

XIX
Um súbito córrego atravessava meu caminho
Veio tão inesperado quanto uma cobra
Sem o lento escorrer que a atmosfera desdobra
Poderia ser um banho, com seu burburinho,
Para o casco do demônio, a ver seu redemoinho
Negro borbulhar com espuma e faísca rubra.

XX
Tão pequeno e ao mesmo tempo tão mau
Amieiros o cercavam, rasteiros e mirrados;
Salgueiros afundavam-se e afogavam-se desesperados
Numa síncope muda, num atropelo mortal:
Quem os destruiu foi esse carrasco manancial,
E, fosse ele o que fosse, fluía sem ser desviado.

XXI
Bom Deus, ao adentrar seu leito, quanto medo
De pisar o rosto de algum cadáver humano,
A cada passo — tateando com um ramo
A cata de buracos — seus cabelos entre meus dedos.
Um rato d'água talvez tenha por acaso lancetado,
Mas, argh, parecia o grito de um menino.

XXII
Estava feliz quando cheguei ao outro lado.
Agora terras melhores me esperam. Vã esperança!
Quais foram os contendores? Qual foi a matança?
Que trotar selvagem pôde fazer desse solo molhado
Um atoleiro? Sapos em um tanque infectado
Ou gatos selvagens numa cela em incandescência —

XXIII
Assim deve ter sido a luta naquela arena decadente
O que os trouxe até lá, se tinham toda a planície?
Nenhuma pegada na direção daquela imundície
Nenhuma dela se afastando. Alguma poção demente
Agiu em seus cérebros, sem dúvida, como no da gente
Escrava — judia e cristã — que o turco atiçava por malícia.

XXIV
E além de tudo — a uma milha —, o que era aquele achado?
Para que mau intuito servia aquela máquina, aquela polia —
Um travão, não uma polia —, aquela grade que fiaria
Corpos humanos como se fossem seda? O ar desonrado
Dos rituais de Tophet, na terra perdido, ou invocado
Para afiar o enferrujado metal da sua gradaria.

XXV
Então uma terra de galhos, que um dia foi floresta;
Depois algo como um pântano; e agora apenas terra dura
Desesperada e acabada (um tolo encontra ventura,
Faz algo e em seguida o destrói, seu humor desembesta
E ele o abandona!). Por dez ares, chão que cresta,
Lamaçal, seixos, areia, e uma esterilidade negra, impura.

XXVI
Agora, pústulas inflamam-se em cor forte,
E medonha. Agora, remendos onde a aridez do chão
Tornou-se musgo, ou substâncias em ebulição;
Surge então um carvalho, e nele há um corte
Como uma boca distorcida que cava seu porte
Num bocejo para a morte, morrendo em seu repuxão.

XXVII
E tão longe como nunca o fim se afigura!
Nada no horizonte senão a noite, nada
Que direcionasse adiante minha passada!
Isso pensei, e surgiu um pássaro de imensa negrura
Amigo de Satã, a asa de dragão, na largura,
roçou meu gorro — talvez esta fosse a guia procurada.

XXVIII
Ao olhar para cima, apesar do anoitecer,
Vi com mais clareza. A planície dera lugar
às montanhas que a cercavam — nome muito invulgar
Para meras alturas feias e montes a não mais ver.
Como poderiam elas ter-me surpreendido, tente esclarecer!
Como vencê-las também não era fácil deslindar.

XXIX
Mas ainda assim, pareci reconhecer certo truque
Do qual fui vítima, Deus sabe quando —
Talvez em um mau sonho. Aqui estava terminando
O progresso por este caminho. Quando fiz que
desistia, mais uma vez, soou um clique
Como o de um alçapão atrás de mim se fechando.

XXX
Veio a mim de imediato, como fogo em um milharal,
Era este o lugar! À direita, esses dois morros, agachados,
como dois búfalos com os chifres enganchados;
Enquanto à esquerda, uma montanha alta... Boçal,
Imbecil, vacilar logo na hora mais crucial,
Você que treinou uma vida para ter olhos afiados!

XXXI
E se a própria Torre estivesse no centro? Redonda
e atarracada, cega como um coração rasteiro,
Feita de pedra marrom, sem igual no mundo inteiro.
O elfo, caçoando da tempestade que o ronda,
Aponta ao timoneiro o banco que ninguém sonda.
Ele aporta, por pouco não rompendo do casco o madeiro.

XXXII
Não vê-la? Talvez por conta da noite? — se o dia
Ressurgiu para isto! E antes de partir novamente
O poente brilhou por uma fenda rente:
As colinas, como gigantes caçadores na tocaia,
Esperando que a presa na armadilha caia —
"Agora ataquem e matem a criatura, inclementes".

XXXIII
Não ouvi-la? Com tantos sons à volta! O ribombar
dos sinos cada vez mais alto. Nomes nos meus ouvidos
Todos os aventureiros, meus companheiros perdidos —
Como, se um era tão forte, outro de tão corajoso bradar,
Outro tão afortunado, como foram perdidos acabar?
Um instante trazia tantos anos de sofrimentos renascidos.

XXXIV
Ali estavam eles, pelos lados dos montes, unidos
Para assistir meu fim. Eu, uma moldura animada
Para mais um quadro! Numa súbita labareda
Eu os vi e reconheci a todos. E, destemido,
Deixei meus lábios formarem um bramido:
"Childe Roland à Torre Negra chegou", foi minha chamada.

— Poema que inspirou a série A Torre Negra, do Stephen King, anexado ao fim do livro 7. 
Mas fiz o ctrl c do sensacional Projeto 19

sábado, 19 de agosto de 2017

Um exemplo de intriga em Guerra dos Tronos RPG

Inspirado no 703 do Game of Thrones, aí vai um (longo) exemplo do sistema de intriga em Guerra dos Tronos RPG. As estatísticas (mentais e que serão úteis na intriga) são do Guia de Campanha (com exceção da Missandei), com aumentos simbólicos em algumas habilidades (mais nas fichas dos principais) para simbolizar o crescimento deles. Interpretarei o encontro segundo as técnicas, ações, posturas e outros elementos que permeiam uma intriga no jogo. Em outras letras: é uma visualização da riqueza do sistema em prática. 

TIPO. Intriga Comum: vou focar apenas no encontro dos dois, então fica como uma Intriga Comum. Mas, se levarmos em conta os diálogos anteriores (Jon e seus suseranos, Dany e seu conselho), que encorajavam ou dissuadiam a reunião deles, aí teríamos um exemplo de Intriga Complexa, com muitos participantes. 

LOCAL. Pedra do Dragão: Dany está à vontade, sentada em um trono alto, com dragões voando lá fora e dothrakis fazendo cara feia lá dentro. Uma recepção nada calorosa. Jon, além de chegar e já lhe ser tirado o barco, ou seja, sua liberdade para sair da ilha, está a muitas léguas de distância de casa, acompanhado de poucos homens e sem receber a cortesia de ser chamado Rei — uma situação constrangedora. Portanto, nesse local, Dany ganha +3 em Defesa em Intriga.

PARTICIPANTES e as TÉCNICAS usadas. As técnicas usadas são apenas algumas e todas dentro da Habilidade Persuasão, a Enganação chutada pra longe nesta intriga.

Principais participantes:
Daenerys Targaryen
Astúcia 4, Percepção 4 (Empatia 1B), Persuasão 4 (Charme 1B, Convencer 1B, Intimidar 3B), Status 9 (Criação 1B, Reputação 4B), Vontade 4 (Coragem 1B, Dedicação 1B).

Benefícios: Atraente, Sangue de Valyria (Intimidar e Persuasão +2).

Defesa 17 (+3 por causa do local) / Compostura 12

Técnicas de Persuasão: Charme 4D+1B+2, Influência 4
Convencer 4D+1B+2, Influência 4
Intimidar 4D+3B+4, Influência 4

Jon Snow
Astúcia 4, Percepção 3 (Notar 1B), Persuasão 4 (Convencer 1B), Status 9 (Administração 1B, Reputação 2B), Vontade 5 (Coordenar 2B, Coragem 1B, Dedicação 2B).

Benefícios: Carismático (Convencer +2), Fascinante (Influência de Convencer +1).

Defesa 16 / Compostura 15

Técnica de Persuasão: Convencer 4D+1B+2, Influência 6

Periféricos: 
Tyrion Lannister
Astúcia 5 (Decifrar 1B, Memória 1B), Enganação 4 (Atuar 1B, Blefar 2B, Trapacear 1B), Percepção 4 (Empatia 2B, Notar 2B), Persuasão 5 (Barganhar 2B, Convencer 2B, Incitar 1B, Provocar 2B), Status 5 (Administração 2B), Vontade 5.

Defesa 14 / Compostura 15

Técnicas de Persuasão: Convencer 5D+2B, Influência 5
Provocar 5D+2B, Influência 4


Missandei
Astúcia 4 (Memória 1B), Idiomas (Vários) 4, Percepção 3, Persuasão 4, Status 4, Vontade 3.

Benefícios: Eloquente.


Sor Davos Seaworth
Astúcia 4, Enganação 3 (Blefar 2B), Percepção 5 (Empatia 1B, Notar 2B), Persuasão 4 (Convencer 2B), Status 4, Vontade 4 (Dedicação 2B).

Benefício: Especialista (Convencer +1D). Desvantagem: Ignóbil (-1D em todos os testes de Persuasão e Status).

Defesa 13 / Compostura 12

Técnica de Persuasão: Convencer 4D+2B, Influência 4

OBJETIVO. Amizade: ambos desejam firmar uma aliança.

POSTURA. Aqui pode ser usado as Posturas Circunstanciais (partindo da Indiferente, por ser o primeiro encontro deles) para concluir que:
Dany: o oponente é um bastardo (-1 passo), o oponente vem de uma terra distante dentro de Westeros (-1 passo) = Inamistosa — VP 6, Enganação +2, Persuasão -4.

Jon: a oponente é atraente (+1 passo), a oponente vem de uma terra distante dentro de Westeros (-1 passo) = Indiferente — VP 4, Enganação +0, Persuasão +0.
Dany não aceita o fato de Jon ser Rei. Entra na intriga com a cautela de quem está conversando com um possível futuro inimigo. A menos, claro, que ele dobre o joelho. Curiosamente, encaixa como uma manopla na postura Inamistosa, minha escolha para exemplificá-la na cena, em um ponto da história em que ela levou duros golpes da Cersei e não anda de bom humor, mesmo sem usar as opções de Posturas Circunstanciais.

Os jogos de poder não fazem o menor sentido para Jon. Tudo que importa é peitar o que vem chegando do norte. Então ele se mantém neutro a todo o resto, numa postura Indiferente.

Quanto aos periféricos, prefiro interpretá-los assim:
Tyrion: ele tem uma boa memória de Jon Snow, uma certa empatia. Sua postura é Amigável — VP2, Enganação -1, Persuasão +3.

Davos: ele tem o decoro de não guardar mágoas da batalha contra Tyrion e ainda troca uma ideia ligeira com Missandei, como quem está apenas viajando e respirando novos ares. Sua postura é Afável — VP 3, Enganação +0, Persuasão +1 
Note que o sistema vai além, permitindo que essas posturas sofram alterações iniciais com a opção de Reconhecimento (página 182). Outra coisa é que irei assumir uma única Postura para cada personagem, quando o certo seria, por exemplo, Tyrion ter uma Postura para Jon (Amigável) e outra para Davos (Afável, talvez), o que pode dar dor de cabeça e confusão nas anotações de qualquer narrador, argh, daí minha opção de usar uma única Postura por encontro, ao menos nesse exemplo. Vamos seguir.

INICIATIVA. Vou estipular a seguinte ordem: Missandei, Dany, Jon, Davos e Tyrion. 

AÇÃO. Você, que já assistiu a cena outra vez ou que tem a memória do John Silver, deve estar se perguntando: Missandei fala uma única vez, por que diabos adicionar ela!? Bem, por mais que ela não participe da intriga, considerei a longa apresentação da Rainha não apenas isso, uma apresentação, mas sim um tremendo falatório intimidador, como se logo de cara a própria Missandei quisesse dizer "do-bra-o-jo-e-lho!". Então incluí ela para ilustrar o uso da seguinte ação:
  • Com o benefício Eloquente, Missandei age primeiro em qualquer intriga. Sua ação é Tagarelar, contra Jon. Seria um teste de Persuasão contra o passivo de Vontade do alvo (20). Interpreto como uma falha, já que Jon se manteve na mesma, sucinto, sem se atrapalhar nem nada na sequência da intriga. 
Depois de Davos apresentar Jon, Dany inicia a conversa de forma gentil, apesar dos dias ruins, agradecendo a visita e perguntando sobre a viagem. Como em qualquer negociação, a diplomacia é bem vinda. Mesmo assim, ela intencionalmente chama o outro de "Lorde" e não "Rei", um resquício de seu atual humor impaciente. Jon, por sua vez, não fala muito, deixando a palavra com a anfitriã.
  • Usando Charme, Dany tenta fazer uma boa recepção. Por causa de sua Postura Inamistosa, recebe -4 no teste, provavelmente não superando a defesa do Jon. Na sequência, a ação do Rei do Norte é Repensar.
Davos sai da casinha ao ouvir "Lorde", ressaltando que Jon na verdade é Rei. Tem mais a cara de um reforço do que um ataque. Na sequência, Tyrion ocupa o mesmo papel, informando à Dany quem é o arauto de Jon, para que ela tenha mais precisão na conversa ao tratá-lo pelo título de Sor e pelo nome.
  • Davos e Tyrion usam a ação Auxiliar. Ambos tendo sucesso, concedem um bônus de +2 no próximo teste feito por Jon e Dany.
2º Turno. A resposta da Dany é lembrar quem foi o último Rei do Norte, lembrar que aquele Stark fez um juramento à Aegon I. Seu argumento é simples, se resumindo à seriedade de um juramento (por mais que os Targaryen tenham quebrado essa seriedade primeiro...), e com isso ela espera convencer Jon à cumprir com a tradição.
  • A Rainha mantém sua Postura Inamistosa e usa a técnica Convencer, com o +2 do Auxiliar do Tyrion, menos o redutor da Postura, daria: 4D+1B. Ainda assim, digamos que não consiga um resultado satisfatório, capaz até de superar a Defesa do Rei, mas sem conseguir graus de sucesso para superar a VP dele com sua Influência 4. 
Jon, ainda no mesmo espírito, responde apenas o que lhe é perguntado, sem revelar o que tem em mente, pois sente o calor aumentando e é bom ter as palavras certas quando enfim contar a que veio.
  • Mantendo-se Indiferente, a ação de Jon é Recuar. Com o Repensar, do turno passado, ele ganha +2B em um teste de Vontade em que o resultado será sua nova Defesa até o fim do próximo turno. +2 do Auxiliar do Davos e pronto: o resultado do teste pode ser uma defesa do tamanho do Montanha, por algum tempo.
Nesse meio tempo, Davos e Tyrion estão pensando o que dizer quando tiverem uma chance, e melhor que façam depois de terem uma análise completa dos polos daquela reunião.
  • Davos e Tyrion usam a ação Ler Alvo, em que, com um teste de Percepção contra o passivo de Enganação do alvo, é possível descobrir a Postura e a Técnica dele. Ambos possuem uma boa Percepção (Empatia se aplica, no caso do Tyrion) ao passo que tanto Dany quanto Jon não são bons em mentir (passivo de Enganação dos dois = 8). Logo, o sucesso nessa ação concede à Davos e Tyrion um bônus de +1D em Persuasão/Enganação até o fim da intriga. Bacana, né?
3º Turno. Agora, com a face em gesso puro, Dany diz que se ele não está ali para jurar lealdade, então é um infiel. Ela está apelando para seu melhor tiro: botar medo. Jon saca armas parecidas com as que ela atacou no início, também lembrando do passado, mas um passado recente em que seus parentes foram mortos pelo Louco, um evento que por si só justifica o não dobrar de joelhos de um Stark.
  • Dany mantém-se Inamistosa, mas agora sua Técnica é Intimidar: 4D+3B. Jon corta ela (o que irei interpretar como uma Defesa bem sucedida contra o teste da Rainha) e, ainda incrivelmente Indiferente, usa Convencer, que de igual modo, é rechaçado pela alta Defesa da Dany.
Novamente, a Mão da Rainha e o Cavaleiro das Cebolas ficam na periferia da discussão, ruminando preparativos.
  • Davos e Tyrion usam a ação Repensar. 
4º Turno. Dany se desculpa, matando o assunto sobre o seu pai de forma diplomática. O pedido de desculpas é uma bela quebra da tensão, fazendo Jon até trocar um olhar com Tyrion, como se não esperasse por aquilo.
  • Dany enfim diminui sua Postura, de Inamistosa para Desgostosa (VP 5, Persuasão -2), antes de usar Charme. O teste dela, aqui, seria: 4D+1B+2-2 contra a Defesa do Jon, que voltou ao normal de 16. É um teste equilibrado, mas interpreto que sem dúvida Dany teve algum sucesso. Para garantir isso, nessa rolagem, ela poderia gastar um Ponto de Destino para transformar 1B em 1D, jogando então 5D+2-2. Aí sim, digamos, ela conseguiria um sucesso de ao menos dois graus e causaria 8 de Influência, menos VP 4 do Jon = 4 subtraído da Compostura, agora 11 — enfim o primeiro "dano" da intriga.
Jon apenas escuta, novamente escolhendo o silêncio.
  • O Rei usa a ação Repensar. 
Davos e Tyrion estão na mesma telepatia de antes.
  • Diria que ambos usaram a ação Repensar de novo. Já que não há regra que impeça o acúmulo de DB nessa ação, então, ao fim deste turno, eles estão com um bônus de +4B no próximo teste que fizerem.
5º Turno. Voltamos à Dany, mais uma vez, talvez agora mais branda, usando a tradição como argumento. Ela quer Jon como protetor do Norte, e que juntos salvem Westeros. Jon olha para o lado, olha para Davos, olha para o outro lado — bem o jeito de quem ouviu mas não escutou.
  • A Rainha testa Convencer. Falha.
Jon na verdade escutou, mas só até a parte da culpa do pai. O resto não importa para ele. Dany faz a pergunta de 1 milhão e ele diz que desceu até lá para fazer uma aliança. Segundo ele, ambos precisam de ajuda... isso numa escolha sincera, porém horrível, de palavras. Para quem ficou quieto por tanto tempo, poderia ter ficado mais um pouco. Dany troca um olhar com Tyrion, quase rindo de decepção.
  • Jon testa Convencer, e mesmo com +2B do Repensar do turno passado, falha. Rola tudo 1, rs.
Davos e Tyrion só guardando pra depois.
  • Repensar para os dois. +6B no próximo teste.
6º Turno. Lá vai Dany outra vez, perdendo a cor do rosto. Ela já tentou conversar numa boa, até pediu desculpas por algo que não fez. Mas resolve voltar às armas que costuma usar para ganhar: dragões e dothrakis. Só menções.
  • Ela ainda se mantém Desgostosa e torna a usar Intimidar: 4D+3B+2. Com dois graus de sucesso, por exemplo, ela conseguiria Influência 8 contra VP 4 do Jon = "dano" 4. Jon, agora, fica com Compostura 7.
Quem responde à Dany, desta vez, é Davos. O cavaleiro explica melhor que o interesse deles ali não é enfrentar Cersei. Seu diálogo é uma forma de reforço.
  • Jon usa Repensar. Davos usa Apaziguar para ajudar Jon. Com um teste de Persuasão (dificuldade 12), pode recuperar 4 pontos da Compostura do Jon, +1 por grau de sucesso. Sua rolagem seria 3D (teste normal da Persuasão) +1D (bônus do Ler Alvo) +2B (bônus do Repensar, perdendo, por exceder a habilidade, outros 2B acumulados) = 4D+4B. Com, digamos, três graus de sucesso, ele recuperaria 7 pontos da Compostura do Jon. O Rei agora está com 14 de Compostura.
Enquanto Davos comenta a batalha quase ganha em Porto Real, Tyrion evoca aquele Tyrion provocativo do passado, ao comentar um "quase". Aquilo não tem propósito para a discussão que acontece, então me parece mais com um ex-Mão do Rei tentando defender aquele grande feito, de ter defendido a cidade. Vou considerar como um ataque desperdiçado em Davos, não em Jon.
  • Tyrion, Amigável, usa Provocar. Como Davos na ação anterior, ele desperdiça alguns DB, ainda assim conseguindo uma poderosa rolagem de 5D+5B+3. Com dois graus de sucesso, causa Influência 8 contra a VP 3 do Afável Davos = 5 de dano. Davos saí dessa provocação com Compostura 7.
7º Turno. Aqui acontece uma sequência com muita falação, sem realmente acrescentar algo às propostas de ambos os lados. Começa com a Dany finalmente querendo escutar Jon, que disse que ela é no mínimo melhor que Cersei, e termina com Tyrion explicando que quando ele fala "crianças", se utiliza de metáfora.
  • Todos mantém suas Posturas e usam Repensar. Jon = +4B no próximo teste, outros = +2B.
8º Turno. Dany não está mais no ataque, parece um tanto curiosa.
  • A Rainha usa Repensar. +4B em seu próximo teste. 
Jon enfim fala do Rei da Noite, troca uma frase com Tyrion, pra tentar ganhar algum crédito ali, por mais insano que soe a ideia de mortos em marcha. É um assunto que ele não sabe como apresentar de outro modo, que não o direto. A curiosidade da Dany parece sumir, ela nem se quer comenta um "calma, mortos?! Fale-me mais, por favor!". Sinal que é resistente à acreditar no fantástico (embora tenha dragões, embora tenha entrado numa casa sinistrona lá na season two). Jon Snow perdeu seu melhor tiro numa parede cética de olhos vidrados.
  • Jon testa Convencer. Ao todo, um bom 4D+4B+2, com perigosos 6 de Influência. Mas nada de vencer o 20 de Defesa dela. 
Davos e Tyrion acumulam ideias.
  • Repensar, de novo, para os dois. +4B.
9º Turno. Dany levanta, sinal de impaciência. Desce os degraus enquanto fala grosso, narrando a fé em si mesma. Diz que irá comandar os Sete Reinos, em alto tom, como se alguém ali na sala tivesse dito que ela não merece ou que não irá conseguir... É, então, uma afirmação para si mesma. De modo que ela não consegue direcionar o argumento de uma forma nova e persuasiva para cima de um Jon heroicamente calmo, que já escutou aquele ponto de vista antes na mesma conversa e continuou imune à ele. Jon, à exemplo de Dany, ignora toda a crônica de vida Targaryen para dizer que o importante mesmo é a treta no norte.
  • Ela usa a ação Tagarelar. É um teste de Persuasão contra o passivo de Vontade do Jon (20). O teste dela, mais os bônus de Repensar acumulados, menos redutor da Postura, seria 4D+4B. Não funcionou. 
Agora, uma pequena inversão na ordem: Tyrion fala primeiro que Davos. A participação dele é bem diplomática. Não está atacando Jon, mas sim explicando que, com os olhos em Porto Real, não tem como eles ajudarem o norte no momento.
  • Tyrion usa Auxiliar. Com um sucesso, concede um bônus de +2 ao próximo teste da Dany. Gastou aqui os bônus guardados da ação Repensar.
Então, Davos. Ele já leu o alvo, sabe que Dany não acredita no Jon, escutou os feitos dela e ok, beleza, mas o Jon também tem um currículo legal e é nesse currículo que os nortenhos botam fé. (Off, momento curiosidade: a narrativa do Davos tem a intenção de colocar Jon no mesmo patamar de Dany, demonstrar que são iguais, em uma genial construção de momento em que ela não está mais no trono, mas sim de frente com Jon, numa mesma altura. Ou seja: o seriado é monstruosamente perfeito até em sutilezas como essa! Que R'hllor abençoe ricamente as mentes por trás desse show!)
  • A ação do Davos é Tagarelar, mais os bônus de Ler Alvo e Repensar: 5D+4B contra 16 de Vontade passiva da Rainha. Com um sucesso, ela perderia Astúcia na Defesa, ficando com 16.     
10º Turno. Dany, Jon e Davos ficam quietos. A bola está com Tyrion. Ele pede, de uma forma mais macia, para Jon se ajoelhar. Este, pela primeira vez, se exalta um pouco. Mas ainda continua firme em sua decisão.
  • Rei, Rainha e Sor usam Repensar. Tyrion tenta Convencer. Seu teste, mais Ler Alvo, mais bônus da Postura, é ótimo: 6D+2B+3. Com um sucesso, digamos, de dois graus, ele causa Influência 10 contra VP 4 do Jon. O rei leva 6 de dano em sua Compostura. O Rei estava com 14, agora fica com 8 de Compostura, ainda no jogo. 
11º Turno. Tyrion fez a última tentativa desse encontro sem acordos. Logo em seguida, Jon e Dany reforçam seus argumentos, irredutíveis. E aí Varys salva a cena, encerrando temporariamente a intriga.

RESOLUÇÃO. A intriga não acabou ali, claro. São dois personagens com alta defesa, não muito acostumados a resolver as coisas na base da conversa, daí a envergadura de 10/11 turnos. A verdadeira resolução demora à vir (se é que realmente há uma resolução, hm). Tyrion provavelmente vence Dany, convencendo ela a ser boa gente com o nortenho, dar um voto de confiança. O próximo encontro dos principais é mais casual, Dany cedendo mesmo sem acreditar no Rei da Noite, tudo para poder melhorar a Postura do outro à seu respeito (quando a própria Postura dela já aparenta uma melhora). Jon também tenta algo ao levar ela até a caverna, um ambiente de sua escolha, onde pôde, talvez, fazer Dany acreditar, mesmo sem aceitar o reinado dele. E por aí vai, até o 704.

A dificuldade do sistema, me parece, está no fato de ter muitas coisas para se levar em conta. Postura, Técnicas, ações, variáveis como local e posturas circunstâncias, até mesmo o uso de Pontos de Destino... são vários números e possibilidades para se ter em mente e isso pode ser intimidador. Mas, como tudo, com o tempo melhora, se torna habitual. Hoje, mais acostumado com o sistema, penso que em um cenário inspirado em Westeros, onde o combate social tem tanta importância quanto aqueles resolvidos na lâmina, é mais do que justo ter um conjunto de regras que encorajam você a não resolver as conversas importantes com um único teste de Carisma.

Por último, esse exemplo é interessante para ver dois personagens voltados para outras coisas, menos intriga, interagindo. Não são negociantes estrategistas como Tywin, Mindinho, Doran. No entanto, foi necessário que o momento acontecesse, e que fossem eles no fronte. É uma consideração que qualquer narrador/jogador de GdTRPG deveria ter: por mais combatente e líder de homens que o seu personagem seja, o narrador pode (e digo que deve) conduzir um sessão (inteira?) como essa — Jon por dois episódio em Pedra do Dragão, tentando ganhar uma luta não com Lâminas Longas ou Machados, mas com Convencer.

Até.

domingo, 30 de julho de 2017

Mentor

Se por um acaso você está lendo isso e tem um propósito literário na sua vida, ou, não tão sério, você simplesmente gosta de escrever, então pegue este conselho aqui: tenha um mentor. Não estou falando de uma pessoa que vai ler o que você criar e dizer se está bonzão ou meh, não, essa pessoa é bacana, nada contra, mas um mentor vai além. Um mentor é aquele com quem você aprende coisas, é a pessoa que escreve, assim como você, e sabe como sobreviver às chagas que assolam todos que se aventuram nessa insanidade de ordenar pensamentos em narrativas. É aquela pessoa que, tipo, trinta minutos de conversa já te compila meia dúzia de coisas importantes para serem anotadas e praticadas. Um comentário desse magnífico guru, um ponto de vista diferente, pode resolver páginas avacalhadas daquela história que você empurra com a barriga e pensa depois eu termino, um dia eu termino, termino, pode deixar, quando eu tiver inspiração, aí sim o bicho vai pegar — mas no fundo você ora por um milagre ou por uma daquelas pílulas do Limitless, pois, olha, tá difícil. Mas dá pra facilitar: tenha um mentor.

Plínio Camillo é o melhor mentor que conheço. 

Então você, paulista, pega este conselho último: aproveita a chance gratuita! Tudo que você precisa saber sobre, está bem AQUI.