sábado, 19 de agosto de 2017

Um exemplo de intriga em Guerra dos Tronos RPG

Inspirado no 703 do Game of Thrones, aí vai um (longo) exemplo do sistema de intriga em Guerra dos Tronos RPG. As estatísticas (mentais e que serão úteis na intriga) são do Guia de Campanha (com exceção da Missandei), com aumentos simbólicos em algumas habilidades (mais nas fichas dos principais) para simbolizar o crescimento deles. Interpretarei o encontro segundo as técnicas, ações, posturas e outros elementos que permeiam uma intriga no jogo. Em outras letras: é uma visualização da riqueza do sistema em prática. 

TIPO. Intriga Comum: vou focar apenas no encontro dos dois, então fica como uma Intriga Comum. Mas, se levarmos em conta os diálogos anteriores (Jon e seus suseranos, Dany e seu conselho), que encorajavam ou dissuadiam a reunião deles, aí teríamos um exemplo de Intriga Complexa, com muitos participantes. 

LOCAL. Pedra do Dragão: Dany está à vontade, sentada em um trono alto, com dragões voando lá fora e dothrakis fazendo cara feia lá dentro. Uma recepção nada calorosa. Jon, além de chegar e já lhe ser tirado o barco, ou seja, sua liberdade para sair da ilha, está a muitas léguas de distância de casa, acompanhado de poucos homens e sem receber a cortesia de ser chamado Rei — uma situação constrangedora. Portanto, nesse local, Dany ganha +3 em Defesa em Intriga.

PARTICIPANTES e as TÉCNICAS usadas. As técnicas usadas são apenas algumas e todas dentro da Habilidade Persuasão, a Enganação chutada pra longe nesta intriga.

Principais participantes:
Daenerys Targaryen
Astúcia 4, Percepção 4 (Empatia 1B), Persuasão 4 (Charme 1B, Convencer 1B, Intimidar 3B), Status 9 (Criação 1B, Reputação 4B), Vontade 4 (Coragem 1B, Dedicação 1B).

Benefícios: Atraente, Sangue de Valyria (Intimidar e Persuasão +2).

Defesa 17 (+3 por causa do local) / Compostura 12

Técnicas de Persuasão: Charme 4D+1B+2, Influência 4
Convencer 4D+1B+2, Influência 4
Intimidar 4D+3B+4, Influência 4

Jon Snow
Astúcia 4, Percepção 3 (Notar 1B), Persuasão 4 (Convencer 1B), Status 9 (Administração 1B, Reputação 2B), Vontade 5 (Coordenar 2B, Coragem 1B, Dedicação 2B).

Benefícios: Carismático (Convencer +2), Fascinante (Influência de Convencer +1).

Defesa 16 / Compostura 15

Técnica de Persuasão: Convencer 4D+1B+2, Influência 6

Periféricos: 
Tyrion Lannister
Astúcia 5 (Decifrar 1B, Memória 1B), Enganação 4 (Atuar 1B, Blefar 2B, Trapacear 1B), Percepção 4 (Empatia 2B, Notar 2B), Persuasão 5 (Barganhar 2B, Convencer 2B, Incitar 1B, Provocar 2B), Status 5 (Administração 2B), Vontade 5.

Defesa 14 / Compostura 15

Técnicas de Persuasão: Convencer 5D+2B, Influência 5
Provocar 5D+2B, Influência 4


Missandei
Astúcia 4 (Memória 1B), Idiomas (Vários) 4, Percepção 3, Persuasão 4, Status 4, Vontade 3.

Benefícios: Eloquente.


Sor Davos Seaworth
Astúcia 4, Enganação 3 (Blefar 2B), Percepção 5 (Empatia 1B, Notar 2B), Persuasão 4 (Convencer 2B), Status 4, Vontade 4 (Dedicação 2B).

Benefício: Especialista (Convencer +1D). Desvantagem: Ignóbil (-1D em todos os testes de Persuasão e Status).

Defesa 13 / Compostura 12

Técnica de Persuasão: Convencer 4D+2B, Influência 4

OBJETIVO. Amizade: ambos desejam firmar uma aliança.

POSTURA. Aqui pode ser usado as Posturas Circunstanciais (partindo da Indiferente, por ser o primeiro encontro deles) para concluir que:
Dany: o oponente é um bastardo (-1 passo), o oponente vem de uma terra distante dentro de Westeros (-1 passo) = Inamistosa — VP 6, Enganação +2, Persuasão -4.

Jon: a oponente é atraente (+1 passo), a oponente vem de uma terra distante dentro de Westeros (-1 passo) = Indiferente — VP 4, Enganação +0, Persuasão +0.
Dany não aceita o fato de Jon ser Rei. Entra na intriga com a cautela de quem está conversando com um possível futuro inimigo. A menos, claro, que ele dobre o joelho. Curiosamente, encaixa como uma manopla na postura Inamistosa, minha escolha para exemplificá-la na cena, em um ponto da história em que ela levou duros golpes da Cersei e não anda de bom humor, mesmo sem usar as opções de Posturas Circunstanciais.

Os jogos de poder não fazem o menor sentido para Jon. Tudo que importa é peitar o que vem chegando do norte. Então ele se mantém neutro a todo o resto, numa postura Indiferente.

Quanto aos periféricos, prefiro interpretá-los assim:
Tyrion: ele tem uma boa memória de Jon Snow, uma certa empatia. Sua postura é Amigável — VP2, Enganação -1, Persuasão +3.

Davos: ele tem o decoro de não guardar mágoas da batalha contra Tyrion e ainda troca uma ideia ligeira com Missandei, como quem está apenas viajando e respirando novos ares. Sua postura é Afável — VP 3, Enganação +0, Persuasão +1 
Note que o sistema vai além, permitindo que essas posturas sofram alterações iniciais com a opção de Reconhecimento (página 182). Outra coisa é que irei assumir uma única Postura para cada personagem, quando o certo seria, por exemplo, Tyrion ter uma Postura para Jon (Amigável) e outra para Davos (Afável, talvez), o que pode dar dor de cabeça e confusão nas anotações de qualquer narrador, argh, daí minha opção de usar uma única Postura por encontro, ao menos nesse exemplo. Vamos seguir.

INICIATIVA. Vou estipular a seguinte ordem: Missandei, Dany, Jon, Davos e Tyrion. 

AÇÃO. Você, que já assistiu a cena outra vez ou que tem a memória do John Silver, deve estar se perguntando: Missandei fala uma única vez, por que diabos adicionar ela!? Bem, por mais que ela não participe da intriga, considerei a longa apresentação da Rainha não apenas isso, uma apresentação, mas sim um tremendo falatório intimidador, como se logo de cara a própria Missandei quisesse dizer "do-bra-o-jo-e-lho!". Então incluí ela para ilustrar o uso da seguinte ação:
  • Com o benefício Eloquente, Missandei age primeiro em qualquer intriga. Sua ação é Tagarelar, contra Jon. Seria um teste de Persuasão contra o passivo de Vontade do alvo (20). Interpreto como uma falha, já que Jon se manteve na mesma, sucinto, sem se atrapalhar nem nada na sequência da intriga. 
Depois de Davos apresentar Jon, Dany inicia a conversa de forma gentil, apesar dos dias ruins, agradecendo a visita e perguntando sobre a viagem. Como em qualquer negociação, a diplomacia é bem vinda. Mesmo assim, ela intencionalmente chama o outro de "Lorde" e não "Rei", um resquício de seu atual humor impaciente. Jon, por sua vez, não fala muito, deixando a palavra com a anfitriã.
  • Usando Charme, Dany tenta fazer uma boa recepção. Por causa de sua Postura Inamistosa, recebe -4 no teste, provavelmente não superando a defesa do Jon. Na sequência, a ação do Rei do Norte é Repensar.
Davos sai da casinha ao ouvir "Lorde", ressaltando que Jon na verdade é Rei. Tem mais a cara de um reforço do que um ataque. Na sequência, Tyrion ocupa o mesmo papel, informando à Dany quem é o arauto de Jon, para que ela tenha mais precisão na conversa ao tratá-lo pelo título de Sor e pelo nome.
  • Davos e Tyrion usam a ação Auxiliar. Ambos tendo sucesso, concedem um bônus de +2 no próximo teste feito por Jon e Dany.
2º Turno. A resposta da Dany é lembrar quem foi o último Rei do Norte, lembrar que aquele Stark fez um juramento à Aegon I. Seu argumento é simples, se resumindo à seriedade de um juramento (por mais que os Targaryen tenham quebrado essa seriedade primeiro...), e com isso ela espera convencer Jon à cumprir com a tradição.
  • A Rainha mantém sua Postura Inamistosa e usa a técnica Convencer, com o +2 do Auxiliar do Tyrion, menos o redutor da Postura, daria: 4D+1B. Ainda assim, digamos que não consiga um resultado satisfatório, capaz até de superar a Defesa do Rei, mas sem conseguir graus de sucesso para superar a VP dele com sua Influência 4. 
Jon, ainda no mesmo espírito, responde apenas o que lhe é perguntado, sem revelar o que tem em mente, pois sente o calor aumentando e é bom ter as palavras certas quando enfim contar a que veio.
  • Mantendo-se Indiferente, a ação de Jon é Recuar. Com o Repensar, do turno passado, ele ganha +2B em um teste de Vontade em que o resultado será sua nova Defesa até o fim do próximo turno. +2 do Auxiliar do Davos e pronto: o resultado do teste pode ser uma defesa do tamanho do Montanha, por algum tempo.
Nesse meio tempo, Davos e Tyrion estão pensando o que dizer quando tiverem uma chance, e melhor que façam depois de terem uma análise completa dos polos daquela reunião.
  • Davos e Tyrion usam a ação Ler Alvo, em que, com um teste de Percepção contra o passivo de Enganação do alvo, é possível descobrir a Postura e a Técnica dele. Ambos possuem uma boa Percepção (Empatia se aplica, no caso do Tyrion) ao passo que tanto Dany quanto Jon não são bons em mentir (passivo de Enganação dos dois = 8). Logo, o sucesso nessa ação concede à Davos e Tyrion um bônus de +1D em Persuasão/Enganação até o fim da intriga. Bacana, né?
3º Turno. Agora, com a face em gesso puro, Dany diz que se ele não está ali para jurar lealdade, então é um infiel. Ela está apelando para seu melhor tiro: botar medo. Jon saca armas parecidas com as que ela atacou no início, também lembrando do passado, mas um passado recente em que seus parentes foram mortos pelo Louco, um evento que por si só justifica o não dobrar de joelhos de um Stark.
  • Dany mantém-se Inamistosa, mas agora sua Técnica é Intimidar: 4D+3B. Jon corta ela (o que irei interpretar como uma Defesa bem sucedida contra o teste da Rainha) e, ainda incrivelmente Indiferente, usa Convencer, que de igual modo, é rechaçado pela alta Defesa da Dany.
Novamente, a Mão da Rainha e o Cavaleiro das Cebolas ficam na periferia da discussão, ruminando preparativos.
  • Davos e Tyrion usam a ação Repensar. 
4º Turno. Dany se desculpa, matando o assunto sobre o seu pai de forma diplomática. O pedido de desculpas é uma bela quebra da tensão, fazendo Jon até trocar um olhar com Tyrion, como se não esperasse por aquilo.
  • Dany enfim diminui sua Postura, de Inamistosa para Desgostosa (VP 5, Persuasão -2), antes de usar Charme. O teste dela, aqui, seria: 4D+1B+2-2 contra a Defesa do Jon, que voltou ao normal de 16. É um teste equilibrado, mas interpreto que sem dúvida Dany teve algum sucesso. Para garantir isso, nessa rolagem, ela poderia gastar um Ponto de Destino para transformar 1B em 1D, jogando então 5D+2-2. Aí sim, digamos, ela conseguiria um sucesso de ao menos dois graus e causaria 8 de Influência, menos VP 4 do Jon = 4 subtraído da Compostura, agora 11 — enfim o primeiro "dano" da intriga.
Jon apenas escuta, novamente escolhendo o silêncio.
  • O Rei usa a ação Repensar. 
Davos e Tyrion estão na mesma telepatia de antes.
  • Diria que ambos usaram a ação Repensar de novo. Já que não há regra que impeça o acúmulo de DB nessa ação, então, ao fim deste turno, eles estão com um bônus de +4B no próximo teste que fizerem.
5º Turno. Voltamos à Dany, mais uma vez, talvez agora mais branda, usando a tradição como argumento. Ela quer Jon como protetor do Norte, e que juntos salvem Westeros. Jon olha para o lado, olha para Davos, olha para o outro lado — bem o jeito de quem ouviu mas não escutou.
  • A Rainha testa Convencer. Falha.
Jon na verdade escutou, mas só até a parte da culpa do pai. O resto não importa para ele. Dany faz a pergunta de 1 milhão e ele diz que desceu até lá para fazer uma aliança. Segundo ele, ambos precisam de ajuda... isso numa escolha sincera, porém horrível, de palavras. Para quem ficou quieto por tanto tempo, poderia ter ficado mais um pouco. Dany troca um olhar com Tyrion, quase rindo de decepção.
  • Jon testa Convencer, e mesmo com +2B do Repensar do turno passado, falha. Rola tudo 1, rs.
Davos e Tyrion só guardando pra depois.
  • Repensar para os dois. +6B no próximo teste.
6º Turno. Lá vai Dany outra vez, perdendo a cor do rosto. Ela já tentou conversar numa boa, até pediu desculpas por algo que não fez. Mas resolve voltar às armas que costuma usar para ganhar: dragões e dothrakis. Só menções.
  • Ela ainda se mantém Desgostosa e torna a usar Intimidar: 4D+3B+2. Com dois graus de sucesso, por exemplo, ela conseguiria Influência 8 contra VP 4 do Jon = "dano" 4. Jon, agora, fica com Compostura 7.
Quem responde à Dany, desta vez, é Davos. O cavaleiro explica melhor que o interesse deles ali não é enfrentar Cersei. Seu diálogo é uma forma de reforço.
  • Jon usa Repensar. Davos usa Apaziguar para ajudar Jon. Com um teste de Persuasão (dificuldade 12), pode recuperar 4 pontos da Compostura do Jon, +1 por grau de sucesso. Sua rolagem seria 3D (teste normal da Persuasão) +1D (bônus do Ler Alvo) +2B (bônus do Repensar, perdendo, por exceder a habilidade, outros 2B acumulados) = 4D+4B. Com, digamos, três graus de sucesso, ele recuperaria 7 pontos da Compostura do Jon. O Rei agora está com 14 de Compostura.
Enquanto Davos comenta a batalha quase ganha em Porto Real, Tyrion evoca aquele Tyrion provocativo do passado, ao comentar um "quase". Aquilo não tem propósito para a discussão que acontece, então me parece mais com um ex-Mão do Rei tentando defender aquele grande feito, de ter defendido a cidade. Vou considerar como um ataque desperdiçado em Davos, não em Jon.
  • Tyrion, Amigável, usa Provocar. Como Davos na ação anterior, ele desperdiça alguns DB, ainda assim conseguindo uma poderosa rolagem de 5D+5B+3. Com dois graus de sucesso, causa Influência 8 contra a VP 3 do Afável Davos = 5 de dano. Davos saí dessa provocação com Compostura 7.
7º Turno. Aqui acontece uma sequência com muita falação, sem realmente acrescentar algo às propostas de ambos os lados. Começa com a Dany finalmente querendo escutar Jon, que disse que ela é no mínimo melhor que Cersei, e termina com Tyrion explicando que quando ele fala "crianças", se utiliza de metáfora.
  • Todos mantém suas Posturas e usam Repensar. Jon = +4B no próximo teste, outros = +2B.
8º Turno. Dany não está mais no ataque, parece um tanto curiosa.
  • A Rainha usa Repensar. +4B em seu próximo teste. 
Jon enfim fala do Rei da Noite, troca uma frase com Tyrion, pra tentar ganhar algum crédito ali, por mais insano que soe a ideia de mortos em marcha. É um assunto que ele não sabe como apresentar de outro modo, que não o direto. A curiosidade da Dany parece sumir, ela nem se quer comenta um "calma, mortos?! Fale-me mais, por favor!". Sinal que é resistente à acreditar no fantástico (embora tenha dragões, embora tenha entrado numa casa sinistrona lá na season two). Jon Snow perdeu seu melhor tiro numa parede cética de olhos vidrados.
  • Jon testa Convencer. Ao todo, um bom 4D+4B+2, com perigosos 6 de Influência. Mas nada de vencer o 20 de Defesa dela. 
Davos e Tyrion acumulam ideias.
  • Repensar, de novo, para os dois. +4B.
9º Turno. Dany levanta, sinal de impaciência. Desce os degraus enquanto fala grosso, narrando a fé em si mesma. Diz que irá comandar os Sete Reinos, em alto tom, como se alguém ali na sala tivesse dito que ela não merece ou que não irá conseguir... É, então, uma afirmação para si mesma. De modo que ela não consegue direcionar o argumento de uma forma nova e persuasiva para cima de um Jon heroicamente calmo, que já escutou aquele ponto de vista antes na mesma conversa e continuou imune à ele. Jon, à exemplo de Dany, ignora toda a crônica de vida Targaryen para dizer que o importante mesmo é a treta no norte.
  • Ela usa a ação Tagarelar. É um teste de Persuasão contra o passivo de Vontade do Jon (20). O teste dela, mais os bônus de Repensar acumulados, menos redutor da Postura, seria 4D+4B. Não funcionou. 
Agora, uma pequena inversão na ordem: Tyrion fala primeiro que Davos. A participação dele é bem diplomática. Não está atacando Jon, mas sim explicando que, com os olhos em Porto Real, não tem como eles ajudarem o norte no momento.
  • Tyrion usa Auxiliar. Com um sucesso, concede um bônus de +2 ao próximo teste da Dany. Gastou aqui os bônus guardados da ação Repensar.
Então, Davos. Ele já leu o alvo, sabe que Dany não acredita no Jon, escutou os feitos dela e ok, beleza, mas o Jon também tem um currículo legal e é nesse currículo que os nortenhos botam fé. (Off, momento curiosidade: a narrativa do Davos tem a intenção de colocar Jon no mesmo patamar de Dany, demonstrar que são iguais, em uma genial construção de momento em que ela não está mais no trono, mas sim de frente com Jon, numa mesma altura. Ou seja: o seriado é monstruosamente perfeito até em sutilezas como essa! Que R'hllor abençoe ricamente as mentes por trás desse show!)
  • A ação do Davos é Tagarelar, mais os bônus de Ler Alvo e Repensar: 5D+4B contra 16 de Vontade passiva da Rainha. Com um sucesso, ela perderia Astúcia na Defesa, ficando com 16.     
10º Turno. Dany, Jon e Davos ficam quietos. A bola está com Tyrion. Ele pede, de uma forma mais macia, para Jon se ajoelhar. Este, pela primeira vez, se exalta um pouco. Mas ainda continua firme em sua decisão.
  • Rei, Rainha e Sor usam Repensar. Tyrion tenta Convencer. Seu teste, mais Ler Alvo, mais bônus da Postura, é ótimo: 6D+2B+3. Com um sucesso, digamos, de dois graus, ele causa Influência 10 contra VP 4 do Jon. O rei leva 6 de dano em sua Compostura. O Rei estava com 14, agora fica com 8 de Compostura, ainda no jogo. 
11º Turno. Tyrion fez a última tentativa desse encontro sem acordos. Logo em seguida, Jon e Dany reforçam seus argumentos, irredutíveis. E aí Varys salva a cena, encerrando temporariamente a intriga.

RESOLUÇÃO. A intriga não acabou ali, claro. São dois personagens com alta defesa, não muito acostumados a resolver as coisas na base da conversa, daí a envergadura de 10/11 turnos. A verdadeira resolução demora à vir (se é que realmente há uma resolução, hm). Tyrion provavelmente vence Dany, convencendo ela a ser boa gente com o nortenho, dar um voto de confiança. O próximo encontro dos principais é mais casual, Dany cedendo mesmo sem acreditar no Rei da Noite, tudo para poder melhorar a Postura do outro à seu respeito (quando a própria Postura dela já aparenta uma melhora). Jon também tenta algo, ao levar ela ate a caverna, um ambiente de sua escolha, onde pôde, talvez, fazer Dany acreditar, mesmo sem aceitar o reinado dele. E por aí vai, até o 704.

A dificuldade do sistema, me parece, está no fato de ter muitas coisas para se levar em conta. Postura, Técnicas, ações, variáveis como local e posturas circunstâncias, até mesmo o uso de Pontos de Destino... são vários números e possibilidades para se ter em mente e isso pode ser intimidador. Mas, como tudo, com o tempo melhora, se torna habitual. Hoje, mais acostumado com o sistema, penso que em um cenário inspirado em Westeros, onde o combate social tem tanta importância quanto aqueles resolvidos na lâmina, é mais do justo ter um conjunto de regras que encorajam você a não resolver as conversas importantes com um único teste de Carisma.

Por último, esse exemplo é interessante para ver dois personagens voltados para outras coisas, menos intriga, interagindo. Não são negociantes estrategistas como Tywin, Mindinho, Doran. No entanto, foi necessário que o momento acontecesse, e que fossem eles no fronte. É uma consideração que qualquer narrador/jogador de GdTRPG deveria ter: por mais combatente e líder de homens que o seu personagem seja, o narrador pode (e digo que deve) conduzir um sessão (inteira?) como essa — Jon por dois episódio em Pedra do Dragão, tentando ganhar uma luta não com Lâminas Longas ou Machados, mas com Convencer.

Até.

domingo, 30 de julho de 2017

Mentor

Se por um acaso você está lendo isso e tem um propósito literário na sua vida, ou, não tão sério, você simplesmente gosta de escrever, então pegue este conselho aqui: tenha um mentor. Não estou falando de uma pessoa que vai ler o que você criar e dizer se está bonzão ou meh, não, essa pessoa é bacana, nada contra, mas um mentor vai além. Um mentor é aquele com quem você aprende coisas, é a pessoa que escreve, assim como você, e sabe como sobreviver às chagas que assolam todos que se aventuram nessa insanidade de ordenar pensamentos em narrativas. É aquela pessoa que, tipo, trinta minutos de conversa já te compila meia dúzia de coisas importantes para serem anotadas e praticadas. Um comentário desse magnífico guru, um ponto de vista diferente, pode resolver páginas avacalhadas daquela história que você empurra com a barriga e pensa depois eu termino, um dia eu termino, termino, pode deixar, quando eu tiver inspiração, aí sim o bicho vai pegar — mas no fundo você ora por um milagre ou por uma daquelas pílulas do Limitless, pois, olha, tá difícil. Mas dá pra facilitar: tenha um mentor.

Plínio Camillo é o melhor mentor que conheço. 

Então você, paulista, pega este conselho último: aproveita a chance gratuita! Tudo que você precisa saber sobre, está bem AQUI.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A, B, C, D e por aí vai

Amanda fingia que não me via, era horrível. Quando Bianca não respondeu minha carta, aquela que escrevi em quatro noites insones de paixão, chorei. Meus amigos estavam sempre por perto, o que era um consolo. Eu saia com eles, dava altas risadas. Eram bons momentos e tudo que eu precisava fazer era... Camila — conheci muito ao acaso, foi divino. Em um mês, comprei a aliança; em dois, joguei a aliança no caminhão de lixo, quando ela terminou comigo. Então sai com os meus amigos e esqueci todas essas tristezas. Acho que ficaria com eles para o resto da vida. Amigos de verdade, grande apoio e... Diana. E essa, ah, essa é pra casar...

terça-feira, 18 de julho de 2017

M&M & Marvel: Thanos

Nível 18

HABILIDADES [110p]
Força: 54 (+22); Destreza: 12 (+1); Constituição: 44 (+17); Inteligência: 32 (+11); Sabedoria: 20 (+5); Carisma: 20 (+5).

SALVAMENTOS [19p]
Resistência: 27 (10 Impenetrável); Fortitude: 23; Reflexos: 6; Vontade: 13.

COMBATE [62p]
Iniciativa: 1; Defesa: 18 (14 Desprevenido); Ataque: 11 (13 com Raio); Dano: Desarmado 22, Explosão Cósmica 22, Raio 22.

PERICIAS [144 graduações, 36p]
Blefar 8 (+13); Computadores 8 (+19); Concentração 12 (+17); Conhecimento: Arcano 4 (+15), Ciências biológicas 12 (+23), Ciências físicas 12 (+23), Táticas 8 (+19), Tecnologia 12 (+23); Diplomacia 8 (+13); Intimidar 16 (+23); Intuir Intenção 8 (+13); Notar 4 (+9); Obter Informação 8 (+13); Ofício: Eletrônica 8 (+19), Mecânica 8 (+19), Química 8 (+19); Pilotar 4 (+5).

FEITOS [53p]
Assustar, Bem Informado, Bem Relacionado, Benefício (Status), Contatos, Equipamento 28, Inventor, Liderança, Memória Eidética, Plano Genial, Presença Aterradora 15, Sem Medo. 

PODERES [270p]
  • Campo de Força 15 (Extras: Área [+1], Impenetrável [+1]; 45p)
  • Compreender 2 (Fala e entende qualquer idioma; 2p)
  • Controle de Energia Cósmica 22 (Extra: Área Explosão [+1]; Poderes Alternativos: Raio 22 [Feitos: Acurado, Ataque Dividido], Teleporte 20 [Feito: Progressão 4]; 68p)
  • Crescimento 4 (Tamanho Grande: Força +8, Constituição +4, Ataque & Defesa -1, Agarrar +4, Furtividade -4, Intimidar +2; Feito: Inato; Falha: Permanente [-1]; 9p)
  • Escudo Mental 10 (10p) 
  • Imunidade 11 (Envelhecimento, Fome e sede, Suporte vital; 11p)
  • Proteção 10 (Extra: Impenetrável; 20p) 
  • Rajada Mental 15 (Extra: Área [+1]; Poder Alternativo: Telepatia 10 [Extra: Área [+1]]; 76p)
  • Regeneração 9 (Ressurreição 9 [ação padrão]; 9p)
  • Super Força 10 (20p)



Habilidades 110 + Salvamentos 19 + Combate 62 + Perícias 36 (144 graduações) + Feitos 53 + Poderes 270 = 540 pontos.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

M&M & Marvel: Dr. Destino

Victor Von Doom
Nível 13

HABILIDADES [38p]
Força: 12/26 (+1/+8); Destreza: 10 (+0); Constituição: 12 (+1); Inteligência: 26 (+8); Sabedoria: 20 (+5); Carisma: 18 (+4).

SALVAMENTOS [13p]
Resistência: 1/11 (19 com Campo de Força, 10/18 Impenetrável); Fortitude: 5; Reflexos: 3; Vontade: 11.

COMBATE [8p]
Iniciativa: 0; Defesa: 10/17 (10 Desprevenido); Ataque: 4 (12 com Magia, 12 com Armadura); Dano: Desarmado 1/8, Aura 8, Magia 12, Raio 14.

PERICIAS [168 graduações, 42p]
Blefar 12 (+16); Computadores 8 (+16); Concentração 12 (+17); Conhecimento: Arcano 12 (+20), Ciências biológicas 8 (+16), Ciências físicas 12 (+20), Educação cívica 4 (+12), Táticas 4 (+12), Tecnologia 12 (+20); Desarmar Dispositivo 8 (+16); Diplomacia 8 (+12); Intimidar 12 (+16); Intuir Intenção 8 (+13); Obter Informação 8 (+12); Ofício: Eletrônica 12 (+20), Engenharia 8 (+16), Mecânica 12 (+20), Química 8 (+16).

FEITOS [71p]
Artífice, Assustar, Bem Informado, Bem Relacionado, Benefício 2 (Imunidade Diplomática, Status), Capangas 12 (100 Robôs fanáticos de 90 pontos; 24p), Contatos, Equipamento 20, Especialização em Ataque (Magia) 4, Especialização em Ataque (Armadura) 4, Inventor, Liderança, Memória Eidética, Plano Genial, Presença Aterradora 5, Ritualista, Sem Medo, Sorte. 

PODERES [26p]
  • Magia 12 (Raio 12; Desvantagem: Perda de Poder [Necessidade de gestos para conjurar os feitiços; Menor, Comum] 2; Poderes Alternativos: Invocar 6 [25 Demônios de 90 pontos; Feito: Progressão 4; Extra: Horda [+1]], Nulificar Magia 12, Super Movimento 3 [Movimento dimensional 3], Troca Mental 12 [Extra: Duração Contínua [+1]; Falha: Depende de Sentidos{Visão} [-1]; 26p)

DISPOSITIVO — Armadura 26 [130p distribuídos, 104p]
  • Difícil de perder
  • Feitos: Foco em Esquiva 7, Restrito 2 
  • Campo de Força 8 (Extras: Área [+1], Impenetrável [+1]; Falha: Ação Padrão [-2]; 8p)
  • Comunicação 9 (9p) 
  • Golpe 8 (Extra: Aura [+1]; 16p)
  • Habilidade Aumentada 14 (Força +14; 14p)
  • Imunidade 9 (Suporte Vital; 9p) 
  • Proteção 10 (Extra: Impenetrável [+1]; 20p)  
  • Raio 14 (Feito: Ataque Dividido; Poderes Alternativos: Atordoar 14, Paralisia 14 [Extra: Alcance à Distância [+1]; Falha: Lentidão [-1]], Telecinese 14; 32p)
  • Super Sentidos 3 (Infravisão, Sentido de distância, Ultra audição; 3p) 
  • Voo 5 (10p) 


Habilidades 38 + Salvamentos 11 + Combate 8 + Perícias 42 (168 graduações) + Feitos 71 + Poderes 26 + Dispositivo 104 = 300 pontos.

sábado, 1 de julho de 2017

Sobre heroísmo

É um fato existirem homens decididos a não se contentarem com a realidade. Aspiram a curso diverso para as coisas; negam-se a repetir os gestos que o costume, a tradição e, em resumo, os instintos biológicos querem impor-lhes. A homens assim chamamos heróis. Porque ser herói consiste em alguém ser si mesmo. Se resistimos a que a herança, a que o circunstante nos imponham ações determinadas, é porque almejamos assentar em nós mesmos, e só em nós, a origem dos nossos atos. Quando o herói quer algo não são os antepassados nele ou os usos presentes que querem, mas ele mesmo. Este querer ser si mesmo é o heroísmo. 

— José Ortega y Gasset, em Meditações do Quixote

domingo, 25 de junho de 2017

A massa chamada sonho/destino

Em um sonho é a nossa própria vontade que aparece de maneira inconsciente como destino inexorável e objetivo; tudo nele procede de nós mesmos e cada um de nós é o diretor teatral secreto de seu próprio sonho. O mesmo ocorre no acontecer da vida real: o grande sonho que uma mesma essência (a própria vontade) sonha em todos nós, o nosso destino pode ser o produto do mais íntimo de nosso ser, de nossa vontade, e estamos nós próprios fazendo suceder o que parece estar ocorrendo por acaso. 

— Thomas Mann

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Os androides que descobriram o homem

Tarde de céu púrpura naquela região. Altos níveis de radiação, bolsões solares. Nenhuma coisa se movendo num raio de mil quilômetros. 

Exceto os dois patrulheiros. Caminham através do entulho, construções arruinadas da época daqueles seres inteligentíssimos, com células e DNA, sem necessidade de partes mecânicas em seus sistemas funcionais. Viviam pouco e eram um completo mistério: de onde vieram, quem foi o programador? Como que um deles crescia dentro da barriga do outro? Seres curiosos. Agora extintos. Sobrou só arquivos digitais, secretos, acessados apenas por uma minoria majoritária, programadores de alta patente. Mas mesmo esses arquivos são incompletos, corrompidos, história que não se comprova. Mito. Palpável mesmo só o entulho, por onde os dois caminham, buscando, patrulhando. 

Conversam. 

— Sabe de uma coisa, Grapo? Essa vida de patrulheiro tem cansado minha mente. 

— Se concentra, Sérpico. 

— Eu sei que você também anda chateado. Ter de vagar nesses antigos centros urbanos arrasados, procurando qualquer coisa que se mova. Qual a chance de encontrarmos algo? Deveríamos continuar nos desenvolvendo, investindo nos polos, nas colônias, na Lua. Isso aqui é perda de tempo. O Departamento é perda de tempo.

Vestidos com macacões pesados, um “D” de Departamento estampado no lado esquerdo do peito. Cingidos, arma esquisita no coldre. Telefones mínimos na orelha direita. O que vem mais atrás, Sérpico, carrega uma mochila enorme. Grapo tem um relógio grande no pulso, funciona como um radar. Nada se movendo num raio de mil quilômetros. 

Se entreolham. 

— O que está acontecendo com você? Não parou de falar desde cedo. E agora isso. Toda essa murmuração. Está reagindo mal. Não tem programado suas emoções?

— Está tudo ok com minhas emoções. 

— Por que você não volta e... Está vendo aquilo? 

— O quê? 

Alguém se movendo. Passou despercebido ao relógio de Grapo. Ele apontou: 

Aquilo!
 
— É um... 

Um semelhante. 

Escorregaram por uma encosta e correram, as botas levantando poeira radioativa. O sujeito despencou assim que eles chegaram perto. Implorou, fraco: 

— Água...

Grapo rendeu o moribundo. Sérpico passou um cantil com água produzida em laboratório. 

— Aqui. Toma devagar. Devagar. Sérpico, pega o Espinho, vamos estabilizar ele. 

— Melhor ver que modelo é. Se for muito antigo, o Espinho pode piorar a situação. 

— Certo. Colega, preciso que me diga qual o seu modelo.

— Hm? — O sujeito não conseguia respirar, sua pele queimava. 

Grapo tentou outra vez, calmo:

— Consegue me dizer quando foi ativado? 

Não houve resposta, o semelhante concentrado apenas na convulsão que dominou seu corpo. De sua boca escorria um nutriente esponjoso na cor verde clara, junto com a água recém ingerida. 

— Isso é ruim — disse Sérpico. — Anda logo com isso, Grapo. 

— Colega, irei olhar sua nuca agora. Não reaja com hostilidade, estamos tentando salvá-lo. 

Olhou. 

— E então? — Sérpico estava com as mãos dentro da mochila, só esperando para saber qual equipamento pegar. 

— Não tem nada aqui. 

— Veja no peito. 

Rasgou o camisão. 

— Nada também... Está vendo isso?

Erupções cutâneas decorando a pele, se alastrando, entropia veloz. 

— Radiação — disse Sérpico. — Esse modelo deve ser muito, muito antigo, sem nenhuma imunidade. Anda, usa isso aqui nele. 

— O Gancho?

— Vai por mim. A maioria das células devem ter parado. Só há uma pequena reserva que o mantém funcionando. A vantagem desses modelos é que toda a parte mecânica é bem resistente. O problema está nas células. O Gancho vai agir como uma bomba no sistema. Anda. 

— Ok. 

— Direto no peito. 

— Ok. 

Grapo aplicou, golpe forte. A agulha entrou como se atravessasse papel. 

— Sabe o que isso significa? Que seremos promovidos. Entregar um modelo tão antigo assim... ah, seremos promovidos. Quem sabe para uma das colônias. 

— Você está reagindo mal novamente. Expectativas demais. Por que ele não reage? 

— Espere mais um pouco.

O homem abriu os olhos. Se chacoalhou todo, espasmos espontâneos e violentos enquanto a pele regenerava. 

UH, Deus! O quê!? Ah! 

— Calma. 

— Está queimando... está me queimando!

— Sérpico?

— Aqui, aqui, usa isso.

Outro golpe de injeção no peito. O homem arfou.

— Pronto colega, pronto.

Deus! Meu Deus!

— Que deus? — perguntou Sérpico.

— Preciso que me diga o seu modelo. Consegue se lembrar quando foi ativado?

— Procura o painel dele.

— Não está em parte alguma. Deve ser interno.

Ei, ei! Tira a mão de mim! Sai fora, cara!

— Se acalme, pare de gritar. Respire fundo.

— Quem são vocês?

— Primeiro você.

— Eu? Eu... eu sou o Jonas.

— É um Nexus?

O quê?

— Não grite. É um Topax?

— Esquece, Grapo. Ele deve ter danos no cérebro. Vai demorar alguns minutos até o Gancho restaurar a memória por completo.

— Como veio parar aqui?

Jonas pensou nisso, face franzida.

— Eu... eu estava lá. — Apontou para um amontoado de entulho, prédio antigo derrubado. — Embaixo, numa sala enorme, parecia um cofre. Acordei numa cama, era como uma cama, tinha uma redoma, tinha fios nos meus braços, aqui ó, as marcas... Eu peguei um elevador e subi e passei mal, não consegui voltar, já tinha caminhado até aqui.

— Sérpico, o Escâner.

— Já comecei.

— Que coisa é essa? — Jonas tentou se afastar.

— Fique parado. Ele está vendo se há influência de conexão externa no seu sistema. É procedimento padrão, principalmente quando encontramos modelos confusos.

— Eu não estou entendendo.

— Exato.

— Apenas fique quieto — Sérpico pediu. — Pronto. O Laudo Profundidade saí em alguns minutos, mas o Laudo Superfície diz que está tudo certo com ele. Sem influência.

— Quem... onde? Vocês... Quem são vocês?

— Eu sou G-040815, mas pode me chamar de Grapo.

— E eu sou S-162342, Sérpico, se preferir. E de que deus você estava falando ainda agora?

— Jonas, consegue lembrar ao menos a sua numeração após o “J”? Podemos tentar rastrear sua origem.

— Numeração? Tipo CPF?

— CPF? Sabe o que é CPF, Sérpico?

— Não. Acho que ele é muito mais antigo do que parece.

— Tinha outros como você lá, no cofre?

— Não. Acho que não.

— Lembra onde estava antes de entrar lá?

— Também não.

— Precisamos ir lá ver, Sérpico.

Mas o relógio de Grapo vibrou uma vez e ele olhou ao longe.

No horizonte tremeluzente, algo grande se movia. Outro patrulheiro de passagem.

Jonas massageou o peito, a cabeça, os braços. Respirava pela boca, um aspirador frenético.

— Meu Deus, o que aconteceu com a cidade, com o céu? — Reparou nos dois estranhos e: — O que vocês estão olhando?

— É um N-14, Grapo.

— Vamos sair daqui. Jonas, consegue andar?

— Acho que não.

— Vou te ajudar.

Sérpico saiu na frente:

— Lá, Grapo.

— Ok.

Foram para trás de uma estrutura de aço derretida, endurecida, com partes oxidadas, rodeada de entulho. Ficaram em silêncio. Grapo apertou alguns botões do seu relógio para que não pudessem ser rastreados. Logo depois um sonar ressoou ao longe, fazendo o chão vibrar. Aquilo durou um minuto completo. Grapo e Sérpico, impassíveis, apenas de olho, esperando a ameaça ir embora. Jonas tapando os ouvidos como se sua vida dependesse disso. Quando o som acabou, ele perguntou:

— O que joelhos foi aquilo?! Aquele apito de cachorro?

— Apito de cachorro? Que isso?

— N-14. Um Neutralizador — Grapo explicou. — Inimigo, fazendo o mesmo que nós. Por sorte, lhe encontramos primeiro. Para um N-14 não é interessante restaurar modelos perdidos na guerra.

— Aplica isso aqui nele. É genérico, não vai fazer mal, independente do modelo. Ele deve ganhar alguma imunidade, resistir à radiação. Bem no peito.

— Ok.

Jonas viu a agulha de longe:

Ei! Calma aí, eu sou alérgico à alguns medicamentos. O que é isso, hein? — Tentou recuar, mas foi lento demais. Grapo lhe acertou direto no peito. — AH!

— Pronto. Tudo certo, Jonas, já passou. Sérpico, quanto tempo vai durar?

— O suficiente até voltarmos.

— Ok. Então Jonas, vamos levar você para o Departamento, irão abri-lo, achar seu painel e descobrir o seu modelo. Você será atualizado, ficará novo.

— Cara, ninguém vai me abrir!

— Mas o seu painel é interno, certo?

— Do que você está falando? Modelo, painel? Vocês... — Jonas ergueu as mãos para os dois. — Que loucura é essa? Ficam falando como se eu fosse uma... uma coisa.

— Ele está reagindo mal, Grapo. Prevejo hostilidade.

— É importante que fique calmo, Jonas. Tente não gritar.

— Calmo? Que tal me explicar de novo quem diabos é você, para quem trabalha e... que droga aconteceu com a cidade? Por que tá tudo derrubado? Foi guerra, você disse que foi guerra?

— Grapo?

— O quê?

— Venha aqui. Saiu o Laudo Profundidade do Escâner.

— E? Ele está limpo ou não?

— Limpo. Só que tem umas leituras estranhas. As células, todo o sistema dele... É algo novo. Venha aqui.

Grapo foi.

— Como assim “novo”?

— O corpo dele tem funções biológicas como o nosso, mas funciona sem... olha! O Escâner não pegou nenhuma parte mecânica. Apenas o que parece ser um pino, no joelho esquerdo.

— O que vocês estão falando aí, hein? — Esse era Jonas, um “D” de Desconfiado na ponta da pergunta.

— É externamente igual, mas é diferente em todo o resto. Não deve ter um painel. Olha essas leituras! Ele deve ser tão velho quanto este centro urbano! Um ser antigo, Grapo! Daqueles que nada sabemos!

— Mas eles não viviam pouco? Como está vivo até agora?

— Estava inativo. O corpo ficou conservado. Ainda há resíduos plasmáticos sobre a pele. Deve ser a tal cama que ele mencionou, no cofre. Manteve ele hibernando, nutrido. Só pode ser isso. Precisamos entrar lá e —

Explosão repentina, ali perto. Ondas sonoras expandido o ar parado, entulho para todo lado, neblina de pó. Coisas se moveram num raio de mil quilômetros, puro rebote.

Jonas não resistiu — gritou:

Meu! O que foi isso?!

— O N-14 plantou alguma coisa? — perguntou Sérpico.

— Pouco provável — Grapo consultou o relógio. — Detonação pequena, nada nuclear.

Deus! O que foi

— Jonas, quando você saiu do cofre, viu algum temporizador?

Algum o quê?

— Uma contagem em algum painel. Pare de gritar, por favor.

— Contagem... Sim, tinha um relógio digital lá. Mas ele estava quebrado, contando para trás. Faltava 15 para meia noite.

— O lugar se auto destruiu, Grapo. Só temos ele. Venha aqui. Sabe o que isso significa?

— Você está reagindo mal, Sérpico. Ar conspiratório.

— Isso significa que seremos mais do que promovidos.

— Ei, Grapo. É Grapo, né? O que vocês estão cochichando aí? Não vou deixar ninguém me abrir, estão entendendo?

Sérpico cochichou:

— Não podemos levá-lo para o Departamento.

— O que está sugerindo?

— Estou sugerindo, meu caro Grapo, que devemos ir para outro centro urbano arrasado, aquele que patrulhamos na onzena passada. Lá tinha um laboratório razoavelmente bem conservado, lembra?

— Lembro.

— Vamos para lá e estudamos ele.

Jonas:

— Por que estão me olhando assim? Eu conheço os meus direitos e ninguém vai me abrir!

— Estudamos ele e depois vamos para outro centro científico vender nossa informação, divulgar nossa descoberta. O Departamento já nos cansou muito. Não merecem. Chega de patrulhas nesses lugares mortos e cheios de radiação! Chega de correr e se esconder de Neutralizadores! Ganharemos um prêmio por ter encontrado ele! Iremos direto para a Lua!

— Não sei, Sérpico...

— Olha só para ele, Grapo! Olha o tanto que podemos aprender! CPF, deus, apito de cachorro... ele tem muito a nos ensinar!

— Ok.

Sérpico meteu a mão na mochila uma última vez. Tirou outra seringa.

— Toma. Isso aqui vai deixar ele mais tranquilo e inofensivo, só enquanto fazemos a viagem.

Jonas viu e começou a se mexer inutilmente:

— E agora, o que é isso aí? Hm? Fiquem longe de mim seus cretinos! Fiquem longe de mim!

Sérpico se adiantou, segurou Jonas no chão.

— Já sabe, né?

— Sim — garantiu Grapo, armando o golpe. — Direto no peito.