domingo, 23 de outubro de 2016

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Enquanto isso, em Westworld

— Você é real?
— Se não consegue distinguir, faz diferença?
— lá na série Westworld

sábado, 8 de outubro de 2016

Dran

Estava eu lá jogando um Guerra dos Tronos RPG de boas, meu Draerys 'Dran' Avalyon metido num torneio em Porto Real com conspirações rolando nos bastidores, quando de repente o narrador resolve me alavancar para a final, para enfrentar um certo príncipe Baelor Targaryen (aquele conhecido pela alcunha de Quebra Lanças — você certamente leu O cavaleiro dos sete reinos e O mundo de gelo e fogo,  hm?). O cenário de jogo é depois da Rebelião Blackfyre. A casa do meu personagem, e dos meus camaradas de jogo (que interpretam meu irmão, tio, pai e confidente do pai), é uma casa na pegada dos Targaryen — veio de Valyria antes de dar ruim praqueles lados de lá. Aí nos tempos atuais, os Avalyon lutaram do lado que perdeu a Rebelião, mas o rei lançou um perdão e ficou todo mundo de bem, iniciou um torneio maroto, e lá chegaram os Avalyon pra competir e conspirar.

Tipo essa imagem do mago Marc, só que sem dragões, que morreram tudo, muito antes da Rebelião, hm
Fazia um belo tempo que não escrevia um "reporte de campanha", e o narrador que começou com a ideia, escrevendo um conto da primeira sessão de jogo através do ponto de vista do escudeiro do meu Dran, o pobre Jon. Então entrei na brincadeira e reportei o seguinte:

Aquele era o único momento que ele não pensava em nada. Absolutamente nada. Sua mente se tornava um campo vazio, branco. Tudo que importava era o seu golpe e o golpe do adversário. O restante parava de existir bruscamente. Era um não-momento, então.

Mas depois que quebrou a primeira lança com o príncipe, Dran foi chacoalhado pela realidade impiedosa: estava na final de um torneio — estava na final de um torneio com o futuro herdeiro do trono. Como isso aconteceu? Tinha se preparado para aquilo, óbvio. Aprendeu cavalaria desde cedo com Sor Liam, o mestre de armas dos Avalyon. Lança e escudo foram os seus melhores amigos enquanto crescia. Um torneio era a prova de fogo e ele se achava mais do que pronto para ser uma adversário de respeito e memorável. Mas não esperava por... tanto.

Até parece errado, pensou, ofegante. O bafo quente de quem não comeu nada nas últimas horas embaçou sua visão do mundo. Ou seria lágrimas, suor? Parece errado. Eu. Competindo. Com ele.

Lentamente, como se o mundo tivesse desacelerado, Dran moveu Silencioso no outro lado do cercado. Seus olhos se desviaram para o pessoal que assistia e a sensação inicial foi de vertigem pura. Se segurou firme nas rédeas e sem querer apertou Silencioso com as esporas, para se manter sobre ele. O cavalo nem se quer relinchou, como de costume — apenas moveu a cabeça, contrariado. Dran sussurrou para o cavalo:

— Desculpa.

A voz saiu embargada, como quando falou com Jeyne pela primeira e segunda e terceira vez, meses atrás. Mas Silencioso deve ter escutado e compreendido pois se posicionou praticamente sozinho junto ao cercado.

Jeyne.

Não, não podia pensar nela agora. Ainda ofegante, jogou fora a lança quebrada e pegou outra com Jon, seu escudeiro. O menino olhou para Dran com um rosto difícil de decifrar, admiração e preocupação junto, talvez. E foi aí que Dran sentiu o ombro latejando. Tinha sido atingido, então. Mas no campo vazio que era sua mente quando competia, mal percebera.

Olhou para o príncipe, no outro extremo. Ileso.

Mal encostei em seu escudo, Dran pensou, ainda sem conseguir uma cura para a respiração errada. O campo vazio de sua mente estava, aos poucos, sendo poluído de coisas, interpretações, medos. Sentia que não tinha chance contra o herdeiro, uma rodada da justa já lhe provara isso. Na verdade, uma observação fora suficiente, antes da competição ter inicio: Baelor, montado e portando a lança, já passava muitas informações. Assistir torneios ajudou Dran a ter um bom olho para essas coisas. Era possível reconhecer um exímio cavaleiro só ao assisti-lo montar, na linha reta dos ombros, no jeito em que suas costas se curvam quando começa o trote, na firmeza da lança estendida. Dran viu tudo isso e soube que era muito.

Parecia errado competir com Baelor.

Mas até então, viu grandes qualidades no Senhor Arryn e mesmo assim o derrubou do cavalo com certa... facilidade, na segunda rodada do torneio. Isso podia ser encorajador, mas Dran prezava pela modéstia. Arryn me deixou ganhar. A competição não era importante para ele e ele me deixou ganhar. Era a explicação racional.

Já Baelor... Esse sim tem interesse na competição.

Avançaram. Dran trincou os dentes e cerrou os olhos. Baelor era uma mancha mortal vindo em sua direção. Será que ele, Dran, também era uma mancha mortal aos olhos do outro? Um competidor que poderia significar alguma ameaça, ainda que mínima?

Talvez não: no choque, Dran quase caiu, sua cabeça indo para trás como se arrancada do corpo. Silencioso diminuiu o passo no tempo certo, impedindo que seu dono rolasse pela sela. E, de alguma forma, quando chegou ao fim do cercado, Dran ainda estava montado.

Tossiu, sentindo a súbita leveza da lança em sua mão: partida. Quando Silencioso começou a virar, ele olhou imediatamente para o príncipe, apenas para checar que ele estava ileso e reluzente. Nem a poeira parecia grudar naquela armadura Targaryen. Era como se Dran estivesse quebrando suas lanças no ar e não no escudo ou na armadura do oponente.

O campo branco foi ficando cinzento de raiva.

Dran levantou a viseira — agora um pouco amassada — e buscou Jon, que já chegava com outra lança. O menino olhou estranho de novo, como se houvesse algo de muito errado no rosto de Dran, que resolveu passar alguns dedos na testa. A luva voltou molhada de suor e sangue.

Na multidão, gritos ecoavam num volume baixo, sufocados pelo coração de Dran. Será que eles escutam?, se perguntou, enquanto convencia o ar a entrar nos pulmões, será que escutam meu coração?

Jeyne certamente escutava. Uma cabeça mais baixa que ele, ela sempre escutava seu coração quando se abraçavam. Onde ela estaria agora? Mais de uma semana sem responder as cartas e, de volta à Porto Real, tudo que Dran achara fora um rastro gelado. Jeyne sumira de repente, junto com toda uma equipe de serviçais da corte dos Targaryen. A Rebelião fez isso? A guerra que ele não participou desapareceu com a pessoa que ele descobriu amar?

E onde ele estava quando essas coisas aconteceram?

Escondido em casa, pensou, irritado consigo mesmo. Poderia ter vindo para Porto Real. Poderia ter previsto que, em tempos conflituosos, coisas mudam, coisas acabam. E, no entanto, ficou quieto, se tornando cavaleiro e treinando com Sor Lian, restringido por uma ordem de seu pai de não participar da guerra, enquanto sua amada sumia misteriosamente.

Seu pai. Senhor Viserys Avalyon.

Não dava pra jogar toda a culpa no pai, claro. Dran poderia ter tentado sair, como já fizera em outras ocasiões, com ajuda do Meistre Morgan. Conseguir um barco não seria difícil, e Dran já tinha uma boa relação com os mercantes, de modo que uma viagem clandestina seria fácil e rápida, a ilha dos Avalyon não ficava nem há três dias de navegação de Porto Real. Mandar cartas sempre foi mais seguro — e tinha algo de romântico naquilo que Jeyne gostava —, mas ele poderia, sim, ter se esforçado mais para se encontrar com ela pessoalmente naqueles dias ruins.

Mas não o fez. E agora ela estava sumida, ele tinha poucas pistas do paradeiro dela e cada vez menos tempo para resolver sua busca secreta, dado os planos do pai, de casá-lo com uma nobre da casa Arryn, política coalhada.

Senhor Viserys — algo não estava certo com ele. Era o que Dran já tinha escutado em algum lugar: os senhores da guerra nunca entram em paz, apenas em hiatos onde planejam mais guerras. Não que seu pai fosse causar alguma coisa, mas estava preparado demais, se antecipando demais, buscando alianças com a mente matemática de quem teme algo...

E é exatamente isso que eles querem.

Eles — os donos daquela moeda que vieram entregar no pavilhão dos Avalyon, os donos da intriga que acontecia lentamente ao redor daquele torneio e, agora, envolvia seu pai. Gente pra lá do Mar Estreito tramava com Viserys em tendas fechadas. Dran não teve tempo de investigar, mas algumas opiniões já erigiam castelos em sua mente... Querem que ele pareça suspeito, que se mova em várias direções e pareça desesperado para criar alianças rápidas e convenientes. Todos sabem que os Avalyon lutaram do lado perdedor, não é? Pois estavam jogando e convidando Viserys para ser um dos jogadores principais. E dessa vez não haveria perdão real.

Ou então esse era apenas Dran com rancor das atitudes de seu pai, tentando racionalizar as decisões de casar Dran com uma Arryn, assim como racionalizou a derrota do Senhor Arryn... Vai ver que foi isso que o derrubou da sela. Não minha perícia com a lança, mas a cortesia dele para com o futuro genro.

Mas só havia uma pessoa com quem Dran gostaria de se casar. Sua lealdade já estava comprada e transcendia as necessidades de sua casa. E, afinal, ele nem era o filho mais velho! Que seu irmão participasse dos jogos de poder e fosse o fantoche que Viserys tanto queria ter à mão.

Dran não. Dran faria seu próprio caminho, e nome desse caminho era Jeyne.

E ele não se importava se era bastarda ou o que for que a sociedade gostaria de nomeá-la.

Olhou para a multidão e viu Viserys. Fechou a viseira com força, encerrando a visão do pai nos círculos pequenos do aço amassado.

Então a nova lança na sua mão ganhou um peso a mais — desafio. Por um momento quis que fosse seu pai, e não Baelor, no outro extremo. Ali, longe dos jogos de palavras, poderia derrotar o pai. Não por prazer, raiva ou qualquer outro sentimento estúpido mal resolvido no seio familiar. Não. Derrubaria o pai apenas para provar que podia, que não era mais uma sombra dele, e que estava livre para fazer o que quisesse.

Os contos preferidos que escutava do Meistre Morgan eram sempre aqueles em que os filhos derrotavam os pais.

O campo cinzento de raiva ficou vermelho — e talvez por isso dessa vez acertou Baelor. Um acerto mediano, que não preocupou o outro, mas que pelo menos impediria o príncipe de ganhar aquela competição sem ser pego ao menos uma vez.

Dran quase caiu novamente, mas ainda não era o tempo. Sentia o cansaço como se estivesse lutando por horas. Ombro, cabeça, peito — estava todo dolorido. Sua garganta era que nem lixa, cada respiração fazendo um chiado seco. Podia desistir, certo?

Virou Silencioso no cercado. Pegou outra lança e encarou o adversário. A multidão gritava. Será que os relatos daquela justa chegariam aos ouvidos dela? Se sim, então não poderia desistir.

Quando Dran percebeu, já estava recebendo outro golpe. Esse nem doeu, pois Dran já estava um tanto quanto além da dor. Pensou ter caído, mas ainda estava sobre Silencioso quando chegou no final do cercado. Seu escudo já era ferro entortado ao passo que o príncipe Baelor estava, veja bem, ileso.

Será que ele está ao menos suado?, Dran levantou a viseira, secou o suor, piscou muitas vezes, para espantar aquela vista embaçada que se instalou sem permissão. Não conseguiu.

Agora seria um bom momento para desistir.

Mas se Dran desistisse, o que isso diria sobre ele?

Desafio. Ele precisava continuar. Não queria fama, queria apenas descobrir que era capaz. Precisava provar algo para si mesmo, ali. Um trabalho estava sendo feito em seu espírito obstinado. E era uma mensagem para os outros: não desistiria de alcançar seus objetivos — teria de ser derrubado para isso. Que seu pai entendesse a mensagem. Que Jeyne, em algum lugar, ouvisse falar daquilo e soubesse que a distância que os separava não seria um adversário à altura de Dran.

Esse era o único poder que realmente existia, e por ele, somente por ele, valia a pena guerrear. Era por causa desse poder que, dessa vez, ele derrubaria o príncipe. Dran avançou, armado de amor.

Mas algo deu errado, Dran não derrubou o príncipe. Ao invés disso, sua cabeça finalmente saiu — foi exatamente essa a sensação quando o elmo voo longe, ao ser atingido pela lança de Baelor. E ele não viu mais nada depois do choque. O campo voltou a ser branco, muito branco.

Estava, novamente, no não-momento. Seu último pensamento foi para...

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Sobre o novo da Emma Ruth Rundle

Dureza parar de escutar esse aqui. Emma é uma feiticeira.



terça-feira, 4 de outubro de 2016

Tesouros de Curitiba e outras histórias, de Valter Cardoso

Foi presente. Fiquei encabulado, até demorei para encontrar as palavras. Achei numa hora dessa: 

Valter Cardoso tem um jeito especial de contar histórias com os olhos no final, na revelação de algo. O que acontece na maioria dos contos dessa antologia é uma pincelada dos detalhes te preparando para alguma coisa, detalhes que passam a fazer maior sentindo quando o oculto se revela e o conto termina. A dica na orelha é importante: "Fugindo do óbvio, tento trazer ao leitor uma experiência nova e inédita em cada conto. Alguns ficam mais evidentes em uma segunda leitura".

Tesouros de Curitiba é uma exceção, o foco aqui está na jornada. Um grupo veterano faz um tipo de caça ao tesouro por uma Curitiba futurista. Nem precisa ser de Curitiba para curtir, mas se for, melhor para sua leitura. Mas o mais legal é o imenso iceberg do cenário atual do mundo, que o autor faz questão de revelar só uma ponta, brincando com a imaginação alheia. Rolou uma guerra, hackers no fronte, e agora internet é proibida. As pessoas voltam a entrar em bibliotecas para descobrir coisas. E tem alguns andarilhos sequelados por causa de conexões mentais clandestinas, tipo um Matrix que deu ruim para eles. Coisa de louco. 

Eu tenho uma queda por essas narrativas que conversam com o leitor, daí fico inclinado a deixar Presas na paixão no pódio. Ao lado cabe Previsão do tempo, ficção científica da boa que vai entortar sua mente, como toda viagem no tempo costuma fazer, melhor ainda quando a história é contada apenas com diálogos. E para o conto Fita de Moebius tá valendo uma exploração no Google do que raios é Fita de Moebius — eu fiz depois da leitura e o sentido da coisa toda caiu sobre minha mente como bigorna pesada.

Tesouros de Curitiba e outras histórias joga com 12 contos no total, histórias com situações que podem lhe ser comuns só que vestidas no camisão bacana da ficção científica. Um belo presente. 

sábado, 1 de outubro de 2016

Quando formato e história dão muito certo, o nome que se dá para isso é Mr. Robot


Na primeira era aquela coisa de controle, tomar o poder de volta, bem Projeto Desordem e Destruição. Agora, na segunda temporada de Mr. Robot você aprende que controle é uma ilusão, controle das situações que crescem para além do alcance de suas mãos, controle de si mesmo. A paranoia noir é tão bem feita — legado da primeira temporada —, que você suspeita que aquele e esse personagem não são quem são, e sim projeções inconscientes (controle é uma ilusão) do Elliot, o protagonista à altura de Tyler Durden. Aliás, me pergunto se Chuck Palahniuk assiste esse show, contemplo os screenplay e a trilha ruidosa pesada e questiono para o meu zíper o que David Fincher tá achando disso tudo. Será que Ridley Scott assistiu o episódio 11 e curtiu aquele teste de empatia? — certamente Philip K. Dick teria aplaudido de pé. 

Seriado monstro.