segunda-feira, 12 de junho de 2017

Os androides que descobriram o homem

Tarde de céu púrpura naquela região. Altos níveis de radiação, bolsões solares. Nenhuma coisa se movendo num raio de mil quilômetros. 

Exceto os dois patrulheiros. Caminham através do entulho, construções arruinadas da época daqueles seres inteligentíssimos, com células e DNA, sem necessidade de partes mecânicas em seus sistemas funcionais. Viviam pouco e eram um completo mistério: de onde vieram, quem foi o programador? Como que um deles crescia dentro da barriga do outro? Seres curiosos. Agora extintos. Sobrou só arquivos digitais, secretos, acessados apenas por uma minoria majoritária, programadores de alta patente. Mas mesmo esses arquivos são incompletos, corrompidos, história que não se comprova. Mito. Palpável mesmo só o entulho, por onde os dois caminham, buscando, patrulhando. 

Conversam. 

— Sabe de uma coisa, Grapo? Essa vida de patrulheiro tem cansado minha mente. 

— Se concentra, Sérpico. 

— Eu sei que você também anda chateado. Ter de vagar nesses antigos centros urbanos arrasados, procurando qualquer coisa que se mova. Qual a chance de encontrarmos algo? Deveríamos continuar nos desenvolvendo, investindo nos polos, nas colônias, na Lua. Isso aqui é perda de tempo. O Departamento é perda de tempo.

Vestidos com macacões pesados, um “D” de Departamento estampado no lado esquerdo do peito. Cingidos, arma esquisita no coldre. Telefones mínimos na orelha direita. O que vem mais atrás, Sérpico, carrega uma mochila enorme. Grapo tem um relógio grande no pulso, funciona como um radar. Nada se movendo num raio de mil quilômetros. 

Se entreolham. 

— O que está acontecendo com você? Não parou de falar desde cedo. E agora isso. Toda essa murmuração. Está reagindo mal. Não tem programado suas emoções?

— Está tudo ok com minhas emoções. 

— Por que você não volta e... Está vendo aquilo? 

— O quê? 

Alguém se movendo. Passou despercebido ao relógio de Grapo. Ele apontou: 

Aquilo!
 
— É um... 

Um semelhante. 

Escorregaram por uma encosta e correram, as botas levantando poeira radioativa. O sujeito despencou assim que eles chegaram perto. Implorou, fraco: 

— Água...

Grapo rendeu o moribundo. Sérpico passou um cantil com água produzida em laboratório. 

— Aqui. Toma devagar. Devagar. Sérpico, pega o Espinho, vamos estabilizar ele. 

— Melhor ver que modelo é. Se for muito antigo, o Espinho pode piorar a situação. 

— Certo. Colega, preciso que me diga qual o seu modelo.

— Hm? — O sujeito não conseguia respirar, sua pele queimava. 

Grapo tentou outra vez, calmo:

— Consegue me dizer quando foi ativado? 

Não houve resposta, o semelhante concentrado apenas na convulsão que dominou seu corpo. De sua boca escorria um nutriente esponjoso na cor verde clara, junto com a água recém ingerida. 

— Isso é ruim — disse Sérpico. — Anda logo com isso, Grapo. 

— Colega, irei olhar sua nuca agora. Não reaja com hostilidade, estamos tentando salvá-lo. 

Olhou. 

— E então? — Sérpico estava com as mãos dentro da mochila, só esperando para saber qual equipamento pegar. 

— Não tem nada aqui. 

— Veja no peito. 

Rasgou o camisão. 

— Nada também... Está vendo isso?

Erupções cutâneas decorando a pele, se alastrando, entropia veloz. 

— Radiação — disse Sérpico. — Esse modelo deve ser muito, muito antigo, sem nenhuma imunidade. Anda, usa isso aqui nele. 

— O Gancho?

— Vai por mim. A maioria das células devem ter parado. Só há uma pequena reserva que o mantém funcionando. A vantagem desses modelos é que toda a parte mecânica é bem resistente. O problema está nas células. O Gancho vai agir como uma bomba no sistema. Anda. 

— Ok. 

— Direto no peito. 

— Ok. 

Grapo aplicou, golpe forte. A agulha entrou como se atravessasse papel. 

— Sabe o que isso significa? Que seremos promovidos. Entregar um modelo tão antigo assim... ah, seremos promovidos. Quem sabe para uma das colônias. 

— Você está reagindo mal novamente. Expectativas demais. Por que ele não reage? 

— Espere mais um pouco.

O homem abriu os olhos. Se chacoalhou todo, espasmos espontâneos e violentos enquanto a pele regenerava. 

UH, Deus! O quê!? Ah! 

— Calma. 

— Está queimando... está me queimando!

— Sérpico?

— Aqui, aqui, usa isso.

Outro golpe de injeção no peito. O homem arfou.

— Pronto colega, pronto.

Deus! Meu Deus!

— Que deus? — perguntou Sérpico.

— Preciso que me diga o seu modelo. Consegue se lembrar quando foi ativado?

— Procura o painel dele.

— Não está em parte alguma. Deve ser interno.

Ei, ei! Tira a mão de mim! Sai fora, cara!

— Se acalme, pare de gritar. Respire fundo.

— Quem são vocês?

— Primeiro você.

— Eu? Eu... eu sou o Jonas.

— É um Nexus?

O quê?

— Não grite. É um Topax?

— Esquece, Grapo. Ele deve ter danos no cérebro. Vai demorar alguns minutos até o Gancho restaurar a memória por completo.

— Como veio parar aqui?

Jonas pensou nisso, face franzida.

— Eu... eu estava lá. — Apontou para um amontoado de entulho, prédio antigo derrubado. — Embaixo, numa sala enorme, parecia um cofre. Acordei numa cama, era como uma cama, tinha uma redoma, tinha fios nos meus braços, aqui ó, as marcas... Eu peguei um elevador e subi e passei mal, não consegui voltar, já tinha caminhado até aqui.

— Sérpico, o Escâner.

— Já comecei.

— Que coisa é essa? — Jonas tentou se afastar.

— Fique parado. Ele está vendo se há influência de conexão externa no seu sistema. É procedimento padrão, principalmente quando encontramos modelos confusos.

— Eu não estou entendendo.

— Exato.

— Apenas fique quieto — Sérpico pediu. — Pronto. O Laudo Profundidade saí em alguns minutos, mas o Laudo Superfície diz que está tudo certo com ele. Sem influência.

— Quem... onde? Vocês... Quem são vocês?

— Eu sou G-040815, mas pode me chamar de Grapo.

— E eu sou S-162342, Sérpico, se preferir. E de que deus você estava falando ainda agora?

— Jonas, consegue lembrar ao menos a sua numeração após o “J”? Podemos tentar rastrear sua origem.

— Numeração? Tipo CPF?

— CPF? Sabe o que é CPF, Sérpico?

— Não. Acho que ele é muito mais antigo do que parece.

— Tinha outros como você lá, no cofre?

— Não. Acho que não.

— Lembra onde estava antes de entrar lá?

— Também não.

— Precisamos ir lá ver, Sérpico.

Mas o relógio de Grapo vibrou uma vez e ele olhou ao longe.

No horizonte tremeluzente, algo grande se movia. Outro patrulheiro de passagem.

Jonas massageou o peito, a cabeça, os braços. Respirava pela boca, um aspirador frenético.

— Meu Deus, o que aconteceu com a cidade, com o céu? — Reparou nos dois estranhos e: — O que vocês estão olhando?

— É um N-14, Grapo.

— Vamos sair daqui. Jonas, consegue andar?

— Acho que não.

— Vou te ajudar.

Sérpico saiu na frente:

— Lá, Grapo.

— Ok.

Foram para trás de uma estrutura de aço derretida, endurecida, com partes oxidadas, rodeada de entulho. Ficaram em silêncio. Grapo apertou alguns botões do seu relógio para que não pudessem ser rastreados. Logo depois um sonar ressoou ao longe, fazendo o chão vibrar. Aquilo durou um minuto completo. Grapo e Sérpico, impassíveis, apenas de olho, esperando a ameaça ir embora. Jonas tapando os ouvidos como se sua vida dependesse disso. Quando o som acabou, ele perguntou:

— O que joelhos foi aquilo?! Aquele apito de cachorro?

— Apito de cachorro? Que isso?

— N-14. Um Neutralizador — Grapo explicou. — Inimigo, fazendo o mesmo que nós. Por sorte, lhe encontramos primeiro. Para um N-14 não é interessante restaurar modelos perdidos na guerra.

— Aplica isso aqui nele. É genérico, não vai fazer mal, independente do modelo. Ele deve ganhar alguma imunidade, resistir à radiação. Bem no peito.

— Ok.

Jonas viu a agulha de longe:

Ei! Calma aí, eu sou alérgico à alguns medicamentos. O que é isso, hein? — Tentou recuar, mas foi lento demais. Grapo lhe acertou direto no peito. — AH!

— Pronto. Tudo certo, Jonas, já passou. Sérpico, quanto tempo vai durar?

— O suficiente até voltarmos.

— Ok. Então Jonas, vamos levar você para o Departamento, irão abri-lo, achar seu painel e descobrir o seu modelo. Você será atualizado, ficará novo.

— Cara, ninguém vai me abrir!

— Mas o seu painel é interno, certo?

— Do que você está falando? Modelo, painel? Vocês... — Jonas ergueu as mãos para os dois. — Que loucura é essa? Ficam falando como se eu fosse uma... uma coisa.

— Ele está reagindo mal, Grapo. Prevejo hostilidade.

— É importante que fique calmo, Jonas. Tente não gritar.

— Calmo? Que tal me explicar de novo quem diabos é você, para quem trabalha e... que droga aconteceu com a cidade? Por que tá tudo derrubado? Foi guerra, você disse que foi guerra?

— Grapo?

— O quê?

— Venha aqui. Saiu o Laudo Profundidade do Escâner.

— E? Ele está limpo ou não?

— Limpo. Só que tem umas leituras estranhas. As células, todo o sistema dele... É algo novo. Venha aqui.

Grapo foi.

— Como assim “novo”?

— O corpo dele tem funções biológicas como o nosso, mas funciona sem... olha! O Escâner não pegou nenhuma parte mecânica. Apenas o que parece ser um pino, no joelho esquerdo.

— O que vocês estão falando aí, hein? — Esse era Jonas, um “D” de Desconfiado na ponta da pergunta.

— É externamente igual, mas é diferente em todo o resto. Não deve ter um painel. Olha essas leituras! Ele deve ser tão velho quanto este centro urbano! Um ser antigo, Grapo! Daqueles que nada sabemos!

— Mas eles não viviam pouco? Como está vivo até agora?

— Estava inativo. O corpo ficou conservado. Ainda há resíduos plasmáticos sobre a pele. Deve ser a tal cama que ele mencionou, no cofre. Manteve ele hibernando, nutrido. Só pode ser isso. Precisamos entrar lá e —

Explosão repentina, ali perto. Ondas sonoras expandido o ar parado, entulho para todo lado, neblina de pó. Coisas se moveram num raio de mil quilômetros, puro rebote.

Jonas não resistiu — gritou:

Meu! O que foi isso?!

— O N-14 plantou alguma coisa? — perguntou Sérpico.

— Pouco provável — Grapo consultou o relógio. — Detonação pequena, nada nuclear.

Deus! O que foi

— Jonas, quando você saiu do cofre, viu algum temporizador?

Algum o quê?

— Uma contagem em algum painel. Pare de gritar, por favor.

— Contagem... Sim, tinha um relógio digital lá. Mas ele estava quebrado, contando para trás. Faltava 15 para meia noite.

— O lugar se auto destruiu, Grapo. Só temos ele. Venha aqui. Sabe o que isso significa?

— Você está reagindo mal, Sérpico. Ar conspiratório.

— Isso significa que seremos mais do que promovidos.

— Ei, Grapo. É Grapo, né? O que vocês estão cochichando aí? Não vou deixar ninguém me abrir, estão entendendo?

Sérpico cochichou:

— Não podemos levá-lo para o Departamento.

— O que está sugerindo?

— Estou sugerindo, meu caro Grapo, que devemos ir para outro centro urbano arrasado, aquele que patrulhamos na onzena passada. Lá tinha um laboratório razoavelmente bem conservado, lembra?

— Lembro.

— Vamos para lá e estudamos ele.

Jonas:

— Por que estão me olhando assim? Eu conheço os meus direitos e ninguém vai me abrir!

— Estudamos ele e depois vamos para outro centro científico vender nossa informação, divulgar nossa descoberta. O Departamento já nos cansou muito. Não merecem. Chega de patrulhas nesses lugares mortos e cheios de radiação! Chega de correr e se esconder de Neutralizadores! Ganharemos um prêmio por ter encontrado ele! Iremos direto para a Lua!

— Não sei, Sérpico...

— Olha só para ele, Grapo! Olha o tanto que podemos aprender! CPF, deus, apito de cachorro... ele tem muito a nos ensinar!

— Ok.

Sérpico meteu a mão na mochila uma última vez. Tirou outra seringa.

— Toma. Isso aqui vai deixar ele mais tranquilo e inofensivo, só enquanto fazemos a viagem.

Jonas viu e começou a se mexer inutilmente:

— E agora, o que é isso aí? Hm? Fiquem longe de mim seus cretinos! Fiquem longe de mim!

Sérpico se adiantou, segurou Jonas no chão.

— Já sabe, né?

— Sim — garantiu Grapo, armando o golpe. — Direto no peito.

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