sexta-feira, 14 de abril de 2017

Como acham o caminho de volta?

Observam.

Antigamente acontecia em cavernas: os místicos acreditavam que o teste deveria ser feito pelo calor e pela escuridão e pelo silêncio absoluto dos mais baixos quartos da Mãe Terra. Tolos. Isso foi há muito, os mais velhos mamavam quando assim o era. Hoje, há sabedoria nos ritos. Há luz. Não é uma questão de sobreviver, mas de observar. O que você pode observar metido numa caverna escura e quente, totalmente preservado dos açoites brancos do céu deste reino? 

Hoje os meninos são guiados em trenós pelos sábios das montanhas. Por dias. Vinho e carne seca, apenas. Tentam manter a compostura enquanto abraçam um único camisão de lã. Vendados, para que não saibam o caminho, para que aprendem a escutar. Sabia que o vento soa diferente conforme o itinerário que traça? Há música no movimento do ar e eles descobrem isso logo na ida. No silêncio das cavernas, não saberiam nenhuma verdade do mundo de fora, do mundo real onde as lutas são travadas. Então, finalmente, são largados na Montanha Quebrada, com pouca comida e uma faca. O rito tem início.

Você pergunta como eles acham o caminho de volta. Eu repito: eles observam. Os mais inteligentes irão encontrar abrigo e esperar pacientemente um sorriso do céu invernal, o único e verdadeiro deus. Irão aguardar a canção na ventania e interpretar no compasso o endereço — isso tudo enquanto dedos intrusos tentam roubar seu calor interno pelos pés e pelos flancos, enquanto o hálito do Inverno Invisível conspira para fazer deles uma pedra. Precisam estar com os olhos atentos para, no momento certo, identificar, atrás dos cobertores celestes, o morto sol que não toca essa parte do mundo. Mas ele, esse morto, está lá, em algum lugar distante, e o galardão para quem o espera aparecer, ainda que por um instante no tempo, é orientação. É como começam a voltar: pela orientação primária do céu, desde que bem observada.

Muitos não esperam, não observam. Retornam à lama cobertos pela geada depois de dias de caminhada a esmo, sem em nenhum lugar chegar. Não há espaço para adivinhações aqui, a sorte não existe — é encontrar o caminho ou perecer. Alguns acham a coragem última na ponta da faca e abrem as próprias gargantas antes de receber o abraço branco. São encontrados pelos sábios das montanhas na próxima patrulha e os jogos fúnebres são prestados, aqui, com os familiares e os mais novos que ano que vem terão uma chance de serem homens. Para estes, fica a lição do que separa um homem morto de um vivo: observação. 

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