sábado, 18 de junho de 2016

Para contadores de histórias

Dos grandes — faz tempo que não posto algo extenso assim sem que Troia, Joe Carroll, Walter White ou Bernard Cornwell estejam envolvidos. Mentira: estão envolvidos sim. Todas as histórias já contadas fazem parte do assunto a seguir, pode apostar.

Acontece que em algum momento deste blog eu teria de falar sobre a Jornada do Herói. Saca o que é?

Imagina uma estrutura narrativa que possui estágios presentes em TODAS as histórias já contadas pela humanidade! Você pode olhar para um poema épico grego, para um conto fantástico do folclore russo, para um livro do Stephen King e para um filme do Tarantino e lá estarão esses estágios! Às vezes em ordens diferentes ou então manifestados de maneiras diferentes — mas sempre com os mesmos propósitos para a história. Não é necessariamente uma cópia, Tarantino copiando King que copiou Homero. Não. Tá mais para um entendimento inato e inconsciente sobre como as histórias são contadas, de como formar narrativas, algo psicológico do ser humano.
A título de bibliografia: Joseph Campbell é o cara que enxergou esse lance psicológico, traçando várias semelhanças entre mitos e contos e escrevendo um livro chamado O herói de mil faces, listando os estágios padrões que ele observou nas histórias. Depois outro crânio, Christopher Vogler, pegou a ideia d'O herói e escreveu um guia, mais voltado para cineastas e escritores, chamado A jornada do escritor, retrabalhando alguns pontos antes apresentados por Campbell. São os dois livros que vão falar da Jornada do Herói. Dois livros que vão explodir sua cabeça, sem brincadeira.

Pois de repente você descobre que contar uma história não é apenas ter inspiração, ter uma ideia original ou depender de alguma outra magia. Entendendo a Jornada do Herói, você saca que contar uma história é algo sistemático e não aleatório. E essa percepção ajuda toneladas na hora de pensar em como iniciar a história, o que acontece a seguir, que tipo de personagem usar nesse ponto da narração, como terminar e várias outras coisas.

Mas é apenas um esqueleto, que fique claro. A planta da casa — aí você enche as colunas, enche a laje, decora como quiser, de modo que faz a história ser sua, só que com elementos universais.

Então irei comentar resumidamente os estágios da Jornada, citando exemplos aleatórios pra que fique bem fácil de visualizar a estrutura universal presente nas histórias. É uma sugestão que sem dúvida será útil para contadores de histórias, seja você escritor(a), educador(a), pai, mãe, narrador(a) de RPG, e por aí vai.

Enquanto isso, vá pensando no último filme/série que assistiu, na última peça de teatro que prestigiou, no último livro/HQ/mangá que leu, e tente identificar os estágios da Jornada nessas obras. Esse exercício de observação é animal de se fazer.


ARQUÉTIPOS
Vogler, antes de falar da Jornada, introduz alguns arquétipos de personagens, de modo que vou copiar ele, falando primeiro dessas mil faces presentes nas histórias. Não são todos. Se você jogar no google (ou melhor, se achar em algum sebo miraculoso o livro O despertar do herói interior, de Carol S. Pearson) vai achar muitos outros arquétipos. Mas estes são os mais comuns:

Herói
Herói é aquele que está em busca de identidade e completude, saindo de seu contexto inicial por vontade própria, necessidade ou compelido por forças maiores, a fim de crescer, se transformar, não ser mais a pessoa que era no início. Para isso ele deve superar obstáculos e no fim alcançar seus objetivos, aí deve retornar, transformado. O Herói também é o cara do sacrifício: tem, ou desenvolve, a capacidade de abrir mão de algo de valor, talvez a própria vida, em prol de um ideal ou de um grupo.

Wolverine, no primeiro filme dos X-Men, é o mais solitário dos lobos. Desperdiça sua vida em lutas clandestinas e depois enche (tenta encher, hm) a cara nos bares. Viaja pra lá e pra cá, totalmente perdido no mundo. Perdido também em seu propósito de vida. É rude, mantém todos longe. É um anti-herói (entenda anti-herói como um Herói que atua por meios culturalmente ou socialmente errados, mas que ainda assim, em sua essência, é um Herói, com todas as características citadas acima).
No final, o personagem mudou tanto a ponto de abraçar a Vampira para que ela volte, mesmo que ele próprio morra (sacrifício), cria um elo com ela (justo aquela do filme que não pode ser tocada!) e deixa de ser inteiramente rude, passa a se interessar por alguém além dele próprio (Jean), aceita trabalhar em equipe (adeus lobo solitário) e encontra na pessoa de Xavier um Mentor que ele nunca acreditou precisar — e esse Mentor direciona seus próximos passos e de repente o Wolverine perdido de antes não existe mais. Sua identidade: um X-Men.

Uma coisa legal de se observar em algumas histórias é que nem sempre o protagonista é o Herói. Jack Sparrow é claramente o protagonista d'A Maldição do Pérola Negra, mas quem apresenta toda a busca por identidade, sacrifício e completude (no caso, na forma de casal) é Will e Elizabeth.

Mentor
Mentor é o personagem que tá aí pra ensinar, orientar e/ou motivar o Herói. É Morpheus, Gandalf, Nick Fury, Alfred, Yoda, Mestre Splinter. Em Fúria de Titãs, é a menina chamada Io, que além de orientar na aventura, explica os presentes que Zeus fornece à Perseu.

Não precisa necessariamente ser uma pessoa. Pode ser um Sonho Verde do Jojen de Game Of Thrones, uma orientação que ocorre quando o personagem dorme.

Ou pode ser um intenso código de honra que serve de parâmetro moral em meio os testes.

Tem alguns personagens que dispensam Mentores, geralmente aprendendo sozinhos: Tony Stark, no primeiro Homem de Ferro, é autossuficiente, seu próprio Mentor. Isso muda por alguns minutos no Homem de Ferro 2, na parte em que o pai dele assume esse papel através de uma gravação antiga, que faz Tony desvendar um novo elemento químico para alimentar sua armadura.
E esse é justamente outro ponto característico do Mentor: fornecer suporte técnico, equipamentos. É Obi-Wan Kenobi passando para Luke Skywalker o sabre de luz de seu pai. É o serviço secreto britânico passando para James Bond — no começo de todos os filmes! — uma pistola especial, um carro com comandos exóticos, et cetera.

Esse arquétipo é tão forte nas histórias que às vezes aparece em mais de um personagem. Nos exemplos já citados, Io orienta enquanto Zeus fornece presentes. Yoda treina e Obi-Wan inicia Luke na força e fornece o sabre.

Guardião do Limiar
Há um momento na Jornada em que o Herói precisa cruzar uma passagem da qual não terá mais volta. Pode acontecer dessa passagem ter um Guardião, que pode ser um personagem (Cerberus, Balrog, Heimdall, Esfinge) ou uma força específica, como os ventos fortes que ameaçam derrubar quem tenta cruzar a ponte velha de madeira. Geralmente é neutro, alguém que simplesmente impede o Herói de seguir adiante de forma imparcial, embora às vezes com violência. Pode acabar virando um Aliado, se for um personagem (ou virando uma Sombra, ressurgindo mais tarde para futuros confrontos).
Pode ser o pai e o pretendente da Elizabeth no começo d'A Maldição do Pérola Negra. Não são personagens que estão ali para fazer mal a ela, mas claramente tentam impedi-la de achar a própria identidade, que só pode ocorrer junto à Will.

Podem ser capangas, soldados. Pode ser uma horda de zumbis do seriado The Walking Dead, que fica bem na entrada de um mercado carregado de suprimentos importantes para o andamento da história.

Arauto
Arauto é aquela mensagem ou mensageiro que anuncia a necessidade de mudança. É aquele que consegue, de alguma forma, despertar uma inquietação no Herói, bem no início da história.
No filme Êxodo: Deuses e Reis, a narrativa conduz Moisés até uma cidade onde os hebreus ralam o dia inteiro no trampo escravo. Já quando entra na cidade, Moisés tem a cara de quem está incomodado, a cara de quem está na presença de algo errado, mas não sabe exatamente o que é... Ele se relaciona com o regente, que menospreza os hebreus, e ali Moisés meio que defende o povo, rechaçando a ignorância do regente. Depois ele vai para o campo e lida diretamente com os escravos e, por mais que tente aparentar segurança e autoridade, Moisés não está no controle, pois ainda está perturbado com aquilo de errado que ele ainda não descobriu o que é. Depois é chamado e recebe a revelação de que não é um egípcio, mas sim hebreu — e aqui está o Arauto, apontando, enfim o que há de errado: o próprio Moisés, sua identidade. Isso o incita a começar alguma mudança, é exilado, e depois encontra Deus. Mas tudo começou com essa mensagem poderosa que apontou algo que o personagem já sentia (afeição pelos hebreus), mas não entendia muito bem.

Arauto é aquele persa que o Leônidas chuta para o poço, no começo de 300. Arauto é a reportagem do atentado numa embaixada americana, que o Sniper Americano assiste e logo depois se alista no exército.

Camaleão
Sabe aquele personagem que você vê e se pergunta "dá pra confiar nesse cara ou ele é um completo pilantra calhorda?" Pois é, esse é o Camaleão, um personagem imprevisível, que pode mudar de motivação, de animo, de lado, de sexo, de tudo. E pode pular de um arquétipo pra outro, assim, do nada.

O mais bacana que eu conheço é o Smeagol, do Senhor dos Anéis. Tem hora que ele é Mentor (ensina sobre o caminho, guia), depois Aliado (tira o mestre do charco amaldiçoado, traz comida na cama), depois Pícaro (ele rivaliza com o Gimli no papel de alivio cômico), depois Guardião do Limiar (o mestre não pode entrar ali, ele vai pegar o Precioso, o Precioso!), aí descamba para Sombra (fica bisbilhotando e o Sam leva cartão vermelho, faz tudo aquilo que vocês já sabem, arranca os dedos do mestre, bicho ruim da peste). Esse personagem é o mais rico do filme, manipulando na Terra Média e aqui, no mundo real, ao nos fazer pensar nele com suspeitas, depois nos fazendo rir, depois gerando em nós alguma esperança de redenção, e depois tensão total ao ver ele derrotando aos poucos os dois Heróis hobbits.
Outra manifestação forte desse arquétipo está presente em quase todos os personagens de Game Of Thrones. Você pode até relevar um personagem como o Mindinho no pé em que a história está atualmente, mas por favor, nunca esqueça que foi ele quem rendeu o Ned lá na primeira temporada, com uma faca no pescoço e um sussurro de "não deveria ter confiado em mim", além de ser ele o dono da faca do assassino no quarto do Bran, um pilantra que está por trás de toda a desgraça que começou entre os Lannister e os Stark. Outro caso: Jaime é um cara que você logo de prima pensa: "esse aí é o maldito da história". Na terceira ou quarta temporada, esse pensamento já virou vento e você nutre alguma possibilidade heroica pra ele, mas logo isso muda de novo quando você vê o egoísmo do cidadão, depois muda outra vez quando ele ajuda o irmão a escapar da condenação certa — e isso não acaba nunca, pois Jaime sempre será capaz de atos heroicos e atos nada heroicos, um Camaleão perfeito. Ou, ainda, Camaleão pode ser aquele personagem que você não sabe quase nada, o que o torna um completo mistério, como uma Melisandre.

O Camaleão está nas histórias pra confundir geral. Mas nem por isso ele é o vilão master, também conhecido como Sombra.

Sombra
É o lado negro da força, o Sauron, a Inglaterra que o Willian Wallace enfrenta. É uma força que vai contra o Herói, que quer destruí-lo. Em algumas histórias é algo de dentro do Herói, algo que o faz se autodestruir, como um Tyler Durden do Clube da Luta, ou uma Mal Cobb do A Origem, ou mesmo um sentimento de culpa, luto, coisas assim. Ou então é um inimigo invisível que permeia a sociedade, uma ideia a ser combatida, como o nazismo em A Outra História Americana.
Esse arquétipo é quase sempre melhor aproveitado quando o personagem ou a força negativa não se vê como algo ruim, como um vilão, como uma ideia errada. Os planos do Magneto em gerar uma falsa mutação em todas as pessoas é para que todos avancem como espécie e haja unidade. Zod, Sombra no filme Homem de Aço, quer apenas recriar Krypton, sua terra natal. Para o Agente Smith, o ser humano é uma praga, uma infecção. Extinção dos humanos é a única solução que Ultron enxerga pra corrigir o mundo, que já foi tantas vezes "corrigido" por eventos catastróficos, algo natural, oras.

Aliado
Legolas, Trinity, Doutor Watson, alguma Bond-girl, algum lobo selvagem. Estão nas histórias como companheiros, parceiros de treino, par romântico, consciência, alívio cômico. São bons para explorar e desenvolver facetas do Herói, através do convívio, de conversas.

Pícaro
É o palhaço, está aí pra aliviar a tensão. Pode ser um sujeito que curta umas travessuras ou então um crítico disfarçado pronto para reduzir egos inflados, apontar tolice e hipocrisia, usando o bom humor como arma — algo que o Tarantino faz nos seus filmes, dando doses de Pícaro pra todo mundo. A Marvel, ao invés de revesti um personagem completamente no manto de Pícaro, aposta em momentos picarescos, geralmente alguma piada ou expressão vinda do Tony Stark após um clímax, ou então o Groot batendo num monte de guardas num súbito acesso de fúria que surpreende o pessoal lá na nave e você na sua poltrona, pra depois ele dar aquele sorriso inocente pra tela, fazendo você rir.

E...
Lembre-se que esses arquétipos são bem fáceis de juntar (você provavelmente já fazia isso nas suas histórias) para que você crie uma infinidade de faces presentes nos seus personagens. Você tem o Batiatus da série Spartacus que é Mentor/Sombra, Bucky Barnes que é Aliado/Camaleão, Tyrion Lannister que é Pícaro/Herói/Aliado e por aí vai. Com tudo isso em mente, vamos à Jornada do Herói.


JORNADA DO HERÓI
Vogler dividiu os 12 estágios da Jornada em três atos, que é como os filmes são feitos. Podem ser resumidos em 1) a decisão do Herói em agir; 2) a ação em si; e 3) as consequências da ação.

ATO I
1. Mundo Comum
O início quase sempre é uma apresentação do cotidiano do Herói, sua zona de conforto, sua rotina. Pode ser que apresente as motivações do Herói, sua identidade, seus Aliados e Sombras, mas quase sempre é mais voltado para o mundo ao redor dele.
Então no início você conhece o Condado. No filme Troia você conhece um cenário de paz entre gregos e troianos. Você conhece o mundo de festas e entrevistas e sucesso e extravagâncias de Tony Stark. Em Gladiador, o Mundo Comum do comandante Máximus são as campanhas romanas contra tribos bárbaras. No filme A Origem, o Mundo Comum de Cobb e companhia é retirar segredos das pessoas através dos sonhos — e não inserir ideias, o que já seria o Chamado à Aventura.

2. Chamado à Aventura
Aqui é apresentado ao Herói (através, talvez, de um Arauto) um problema a ser resolvido, um desafio, uma aventura.

Então Cobb recebe a proposta de trabalhar inserindo ideias através de sonhos. Não é coisa fácil, mas, por um bem maior (poder ter a ficha limpa e poder voltar para os seus filhos) ele considera aceitar o Chamado.

Em Troia, Ulisses visita Aquiles e fala sobre a guerra que virá contra os troianos. Vestindo o manto de Arauto, ele diz que aquela guerra seria contada por milhares de anos e o nome daqueles que participarem dela seriam eternizados. Isso incita Aquiles, que é louco por fama, a aceitar o Chamado.

O Chamado quer transportar o Herói de seu mundo cotidiano, seu Mundo Comum, para um Mundo Especial. Apresenta algo importante que está em jogo, se não para o Herói, talvez para o Mundo Comum dele e todos os seus conhecidos e isso precisa ser motivador o bastante para que o Herói se incomode e deixe sua rotina, seu conforto, seu Mundo Comum. No seriado Breaking Bad, o motivo para aceitar o Chamado à Aventura (cozinhar cristal) é poder juntar grana o bastante para deixar a família sossegada depois que ele, Walter, morrer de câncer (é uma espécie de sacrifício anti-heróico, hm).
Em Guerra Mundial Z, o Herói é recebido num abrigo das forças armadas, mas é convocado a ir ao Mundo Especial descobrir mais sobre o surto zumbi que começou em determinado lugar — e naquele momento é deixado claro que se ele não aceitar a missão, sua família será despachada do abrigo.

3. Recusa do Chamado
Mas mesmo Cobb tendo fortes motivações, ele faz aquela cara de "vou pensar" enquanto seu futuro patrão deixa ele de fato pensando na proposta.

Aquiles quer fama, mas reluta em ir à guerra contra Troia, pois não gosta nem um pouco de Agamemnon, seu rei. Acaba indo consultar a mãe (Encontro com o Mentor) e ela diz que se ele não for, vai viver muito e ser feliz, mas ninguém vai lembrar dele daqui algumas centenas de anos. Mas se for à guerra, seu nome será eternizado, porém, morrerá. Com toda essa informação, Aquiles medita sobre se deve ou não ir à Troia, o Mundo Especial.

Então aqui, nesse ponto, temos o medo, a hesitação. Temos a descrença de Neo do filme Matrix. Temos a tensão do Vincent Vega do Pulp Ficition ao saber que terá de sair com a mulher do patrão mafioso.

Quando o Herói é tão enraizado num código moral, ou simplesmente determinado demais e imune ao medo ou hesitação, a Recusa do Chamado vem através de outros personagens ou forças. Pode ser simplesmente alguém que o Herói considera, dizendo pra ele "não vá". No seriado Spartacus, Sura, a mulher do Herói, tenta convencê-lo a não ir pra uma nova guerra, pois já lutou a vida inteira. No exemplo ela simboliza apenas a Recusa, sem chegar ao extremo de ser um Guardião do Limiar — pois não tenta impedir o esposo.
Outro ótimo exemplo da Recusa gerada por forças externas está no primeiro filme do Capitão América, em que Steve Rogers quer cair de cabeça no Mundo Especial, fazendo de tudo para se alistar no exército e no entanto as coisas ao seu redor conspiram para que ele desista desse Chamado, seja o seu físico abaixo da média ou seus inúmeros problemas de saúde ou mesmo os conselhos do Bucky.

4. Encontro com o Mentor
Se o Herói ainda não se decidiu, o Mentor pode surgir para dar aquele empurrão nele. Morpheus mostra as duas pílulas e, como um Arauto de meio período, incita Neo, falando sobre a identidade dele e do mundo que ele conhecia: "no fundo, você sabe que há algo errado", ele diz. Depois se torna de fato o Mentor, apresentando o Mundo Especial, a Matrix (que Neo pensava ser o Mundo Comum), e apresentando o Mundo Comum (que para Neo, ao menos no início, é um Mundo Especial). Treina Neo em artes marciais (assistência, equipamentos). E, o mais importante, vira e fala "cara, tú é o escolhido e eu acredito em você" — e aqui está algo que Neo não pode ignorar: alguém confia nele, que ele é capaz de seguir o caminho da jornada. Um baita empurrão. 

Gandalf faz quase o mesmo, dizendo que o Um Anel foi confiado ao Frodo, ele é o escolhido. 
Curioso que o Mentor tem de tudo para ser alguém que está aí para roubar a cena. Por esse motivo talvez que ele logo some (Mestre dos Magos), ou morre (Obi-Wan Kenobi) ou deixa o Herói seguir sozinho na viagem (Gandalf) — ou ao menos deixa ele fazer as coisas mais importantes da história, provar que pode se virar sozinho, e essa fé no Herói o tira de cena: Morpheus, depois de resgatado, resolve apenas assistir a luta de Neo (que ficou pra trás, na Matrix) contra o Agente Smith. Naquele momento, Morphues deixa de ser Mentor, pois tudo que podia ensinar, ensinou, e agora seu método de ensino está em teste. Isso é tão nítido — essa perda do arquétipo de Mentor — que o personagem, nos filmes seguintes, murcha e perde toda a presença que o manto de Mentor lhe conferia. Coisa de louco.

5. Travessia do Primeiro Limiar
Então o Herói se compromete com a jornada e adentra o Mundo Especial. A história finalmente decola, o balão alça voo, o navio zarpa, o romance começa, o trem parte. Os hobbits chegam no ponto mais distante do Mundo Comum, na fronteira do Condado com o Mundo Especial. Cooper, do filme Interstellar, se despede da filha e sai pela porta pra logo depois voar para o Espaço.
Importante focar que, ao cruzar esse Limiar, não há mais volta. A família do filme O Iluminado vai ter que ficar lá no hotel sinistro no meio do nada até o inverno passar. Willian Wallace, depois de fazer seu primeiro ataque contra ingleses em retaliação à morte de Marion, é considerado inimigo da coroa para sempre. A Easy Company da série Band Of Brothers enfim é atirada na Normandia, onde irão peitar soldados nazistas e não voltarão pra casa até que a guerra esteja ganha. 

E às vezes há um Guardião do Limiar no caminho, como já dito.

ATO II
6. Provas, Aliados e Inimigos
Mudou o tom, mudou de Ato. Agora o Herói vai começar a aprender as regras do Mundo Especial. Aliados e Sombras são apresentados e o Herói é submetido à testes. Esse é, quase sempre, o estágio mais longo das histórias.

Em Guardiões da Galáxia os Heróis vão parar numa prisão e, depois de uma série de testes para escapar daquele lugar, se tornam Aliados e descobrem que uma Sombra chamado Ronan está atrás deles.
Em Django Livre, Django vira Aliado do Doutor Schultz (que também é o seu Mentor ao lhe ensinar a sobreviver no Mundo Especial dos caçadores de recompensa), passa por alguns testes na área do racismo e depois ruma para o seu verdadeiro propósito ao colher informação sobre onde está sua mulher: na fazenda da Sombra, que logo conhece pessoalmente.

Várias virtudes e defeitos sobre o Herói, até então desconhecidos, são revelados aqui. Então ficamos sabendo se ele é bom em jogos de azar (007: Cassino Royale), se manja dos gritos de guerra para incitar as hordas (Coração Valente), se sofre na presença de kryptonita (O Homem de Aço).

É, em vários sentidos, um estágio de conhecimento. Tanto para o Herói quanto pra quem assiste/lê a história. 

7. Aproximação da Caverna Secreta
Aqui o Herói chega na porta do perigo, onde ele vai enfrentar a Provação. É o Indiana Jones literalmente entrando numa caverna secreta. É o Django chegando na fazenda do senhor Candie. É o Batman d'O Cavaleiro das Trevas avaliando o prédio onde o Coringa está, com alguns reféns e alguns capangas e dois cachorros enormes. É o Perseu se aproximando da gruta da Medusa.

Às vezes rola também um momento de preparação. Pode ser o boxeador no vestiário tomando coragem antes de ir pra luta, ou Neo e Trinity se armando até os dentes antes de se aproximarem da caverna onde Morpheus está aprisionado.

8. A Provação
É o instante do suspense e tensão, o momento sombrio em que o Herói ou seus objetivos correm grande risco. Hora da colisão com a Sombra.

No filme A Origem, é toda a sequência em que Cobb e companhia estão sequestrando aquele em que precisam inserir uma ideia. As coisas não estão fáceis por causa dos seguranças psíquicos, mas eles até que estão indo bem... até que de repente aparece um trem e o empregador é baleado. Tensão pura, pois, apesar de ser um sonho, o cara pode de fato morrer. Daí pra frente é muito tiro, perseguição, várias camadas de sonhos e o tempo correndo, urgência, urgência.
Neo peitando o Agente Smith, levando um combo danado e dando chilique e cuspindo sangue na cadeira de dentista na nave do Morpheus. Frodo sendo perfurado pela lâmina do Nazgul. General Máximus, agora um gladiador ovacionado pelo título de Espanhol, lutando debilitado por causa do ferimento no bucho. Batman tendo a coluna deslocada pelo Bane. São todos momentos de tensão minando as esperanças. Toda história precisa desse estágio, simples assim.

9. Recompensa
No Homem Aranha 2, depois da Provação final contra o Doutor Octopus, Peter finalmente ganha Mary Jane. James Bond, no 007: Cassino Royale, pode enfim desfrutar de férias com a Aliada/Camaleão que veio a amar. Butch, do Pulp Fiction, fica numa boa com o mafioso que tinha enganado, depois de ambos passarem pela Provação na Caverna Secreta — uma loja de penhores de dois maníacos sexuais.

Com o fim da crise, da tensão, da morte perseguidora, o Herói agora desfruta da consequência de ter sobrevivido, eliminando a Sombra e alcançado seus objetivos.
Mas Willian Wallace morre... verdade. O momento é esse: o carrasco inglês oferece uma chance de misericórdia, é a Sombra tentando corromper o Herói. Note que é o Herói quem está condenado, não seus objetivos, seu ideal. Ainda há chances de levante, e é isso que a Sombra está tentando quebrar naquele momento, na frente de todos. Willian irá ceder e deixar seu objetivo morrer junto com ele? O que ele faz é olhar para a multidão neurótica. O que ele vê no meio da bagunça? Vê uma criança, o símbolo da geração futura assistindo aquela Provação, o momento de vida ou morte de um ideal, e isso parece lhe acalmar em meio ao caos... Então Will morre, mas antes grita por liberdade, e esse grito fica guardado nos corações valentes dos escoceses que, logo depois, lutam em memória de Willian Wallace, aquele que não se dobrou perante a Sombra. Seu objetivo irá continuar. Ele pode partir em paz, de fato se libertar. E se pode partir, que seja para junto de Marion, a mulher que amou (simbolizado no lenço de casado que ele segura firmemente antes de morrer, e na própria visão dela, que surge na multidão). Essa é sua Recompensa: o renascimento de seus objetivos agora presente nos outros escoceses, além do descanso junto à Marion.

Então Recompensa nem sempre é tangível e nem sempre é para o próprio Herói.

ATO III
10. O Caminho de Volta
Hora de voltar. Esse estágio é parecido com a Travessia do Primeiro Limiar, só que reverso. A Jornada no Mundo Especial acabou e o Herói deve retornar à rotina, para casa, para o trabalho, para o reino, para o planeta, para a pessoa que ama, para o seu Mundo Comum original.

Às vezes o retorno do Herói é marcado por perseguições. É o que acontece no novo filme do Mad Max, quando Max convence Furiosa de que devem voltar ao Mundo Comum que conhecem, e isso gera toda uma sequência de perseguição com o Immortan Joe na cola.

E por falar no Immortan Joe, que é a Sombra da Furiosa, uma coisa que acontece nesse estágio da Jornada é o retorno da Sombra, caso ela não tenha sido completamente derrotada na Provação. É aquele vilão que aparece todo estropiado e pulsando de vingança, quando o Herói está de guarda baixa, gerando novas cenas de tensão e reviravolta na sorte do Herói.

Além da Sombra, de repente o Herói pode reencontrar o mesmo Guardião do Limiar de antes, ou um novo.
Outra coisa que pode acontecer é o Mundo Especial se tornar mais atraente que o Mundo Comum, a ponto do Herói passar por outra Recusa, só que agora uma Recusa para voltar. Pense em quantas vezes o Walter White disse que ia parar de cozinhar cristal, mas não parava coisa nenhuma, revelando, ao fim da série, que amava de paixão aquele Mundo Especial em que adentrou e se deu tão bem.

11. Ressurreição
Aqui vemos as transformações no Herói, as amostras que ele ressurgiu da morte como uma nova criatura. Então ele irá encarar um medo que antes não encarava, ou vai deixar de ser egoísta pra ser altruísta, ou vai ceder aquilo que ele tem de mais valor em prol de um bem maior.
A Provação do filme A Origem é frenética e estendida por vários minutos. Mas o momento definitivo de ameaça está na figura da Mal, a Sombra, que aparece e quase estraga tudo. É algo a ser encarado, o que Cobb vinha postergando e, como uma das características do Herói e com o auxílio de um Aliado (Ariadne), ele finalmente encara seus fantasmas, encara Mal.

O Aquiles de Troia é muito parecido com o Wolverine do primeiro X-Men. Aquiles é rude, orgulhoso. Tenta tomar a praia de Troia sozinho, só com os seus homens, sem esperar o restante do exército de Agamemnon — uma demonstração de insubmissão, que volta a ser destacada num diálogo com Pátroclo. Tem acessos de fúria. E o seu bem mais precioso é a fama de matador de homens, uma fama que ele quer aumentar ainda mais a envergadura.

Aí Briseis surge como o seu par romântico, começando uma transformação nele. Em dado momento ela fala "chega de mortes", quando Aquiles estava disposto a lutar contra os seus aliados por causa dela, e aí Aquiles de fato não luta e Agamemnon até brinca falando algo como "o poderoso Aquiles silenciado por uma mulher" — o que aconteceu naquela cena foi a mais perfeita submissão, coisa incomum no homem.

O filme vai indo. No final, Aquiles entra em Troia não para buscar fama, não para matar o máximo de troianos que achar. Não. Ele entra para encontrar Briseis. Luta contra troianos e gregos para poder achar ela, aquela que despertou nele coisas diferentes de orgulho e um comportamento rude. Aquiles morre nos braços dela sereno que nem uma criança e não furioso ou triste. Houve poderosa transformação nele ao não buscar mais fama — pois ele já a tinha: ao vencer Heitor na Provação, todos pra sempre lembrariam que foi ele quem derrotou o grande guerreiro de Troia, sendo essa a sua Recompensa do Ato II. O que ele não tinha era o amor que encontrou na pessoa de Briseis e, ao demonstrar isso, Aquiles passou pela Ressurreição.

E mesmo abrindo mão de seus objetivos iniciais, seu nome foi de fato imortalizado. É como se ele merecesse esse Elixir final ao não desejá-lo mais em primeiro lugar. E isso, na narrativa, geralmente vem acompanhado de um forte apelo emocional.

Chris Vogler diz que, quase sempre, as melhores histórias são aquelas que mexem com o seu corpo, seja criando um sorriso no seu rosto ao ouvir uma fala engraçada, um aceno de positivo, um arrepio, uma respiração travada, dores, lágrimas ao acompanhar uma sequência dramática.

O mais intenso apelo emocional que conheci recentemente, do tipo que mexe com o corpo, está no filme Interstellar. A Ressurreição de Cooper se dá quando ele deixa de pensar em voltar para os filhos e se sacrifica em meio o Caminho de Volta para que a doutora Brand tenha uma chance de chegar à outro planeta. Cooper vai para o buraco negro (uma simbologia de morte) sem nenhum tipo de recompensa pelo sacrifício duplo que fez: sua vida e seus objetivos. A Ressurreição deste Herói parece muito ingrata — do que adiantou ele mudar? Aí ele cai numa nova dimensão, que tortura ele e a quem assiste o filme com imagens do quarto da filha em inúmeras passagens no tempo. Aqui você tem plena certeza de que essa Ressurreição é muito, muito ingrata. Cooper se desespera — é o que ele tanto queria, voltar para casa, e não pode, simplesmente não pode. Cooper é um Herói que em sua essência nunca deixou o Mundo Comum e aquela sequência do filme massacra ele pesadamente ao lhe dar acesso ao Mundo Comum e ao mesmo tempo lhe negar isso. É como a pessoa morta que não pode fazer nada pelo seu ente querido, ainda vivo. Não há mais volta. O fim da esperança. Desespero total.
Desespero... note que Cooper, durante o filme inteiro, é um sujeito desesperado. Claro que ele camufla muito bem isso, mas a viagem pelo Espaço só vai ampliando esse seu defeito, ao ver as gravações dos filhos, ver o tempo passando e então querer correr, depressa, depressa, pois preciso voltar pra casa. Isso tira o foco dele.

Até o momento em que Cooper se acalma e acha algum foco. Em alguns segundos, vence o completo desespero que tanto lhe atrapalhava até então e consegue mandar uma mensagem em código morse para a filha. Essa mensagem é o Elixir que irá salvar a humanidade. O personagem saiu do luto e foi para o sorriso. Há esperança novamente, sua filha vai conseguir desvendar a fórmula para resolver os problemas lá no Mundo Comum!

E aí Cooper de repente está satisfeito. Seu processo de ressurreição, iniciado quando ele se sacrifica e morre (caindo no buraco negro), enfim termina quando ele vence o seu desespero. E só então ele ressuscita, literalmente, ao sair do buraco negro e logo em seguida é presenteado com o retorno ao Mundo Comum, que já não é o planeta Terra, mas sim sua filha — um encontro poderoso. Toda essa sequência é de doer o peito e apertar a garganta, obra prima do Chris Nolan e dos atores. Além de ser um dos melhores exemplos de Ressurreição no cinema atual. 

12. Retorno com o Elixir
Então o Herói retorna para o Mundo Comum transformado e com algo a ser compartilhado: um Elixir. Pode ser um tesouro, uma cura para o reino, um conhecimento importante ou apenas uma boa história para contar e alegrar os outros.
Furiosa toma a Cidadela e abre as comportas de água para o povo sofrido. Tony Stark se torna a solução para a paz mundial ao dizer que é o Homem de Ferro. Neo liberta as pessoas da Matrix. Os escoceses conseguem sua liberdade.
Jules, do Pulp Fiction, ressuscitou drasticamente a ponto de evitar um derramamento de sangue no restaurante. Seu Elixir respinga no fato de ninguém sair morto daquele encontro, onde normalmente, não acabaria bem para Ringo e Yolanda. 

Em histórias trágicas, em que nada deu certo, o Elixir acaba sendo para o público — uma lição moral, uma questão a ser refletida, às vezes deixadas de forma clara, às vezes não.

A maioria das histórias possuem essa ideia circular, de partir de um ponto e retornar à ele no fim. Mas existem aquelas histórias que seguem por outro caminho, criando duvidas ao terminar de forma aberta, de modo que o público é o responsável por decidir o que é o Elixir. Abre espaço para a especulação. O final de A Origem é um exemplo: Cobb estava ou não estava num sonho? Se sim, então o Elixir é uma ilusão só para ele. Se não, então o Elixir se derrama sobre os filhos, que reencontram o pai. O final d'O Labirinto do Fauno também levanta a dúvida se era tudo imaginação... ou não.

Então...
É isso. Entender a Jornada do Herói pode ser um ótimo recurso na hora de mandar ver na sua história, seja ela qual for. Você teve uma ideia bacana? Ótimo, então tente trabalhá-la nos 12 estágios da Jornada, pra ver o que acontece. Sério, em 15 minutos você já vai ter enchido muitas colunas e quem sabe a laje da casa. Experimenta.

A observação ajuda quilômetros. Por isso, veja um filme e identifique os estágios da Jornada presentes na história. Chris Nolan é um seguidor ortodoxo da Jornada do Herói, por isso recomendo os filmes dele pra observação, Insônia, A Origem, Interstellar, O Grande Truque, a trilogia do Batman. Eu não citei nenhuma comédia ou filme romântico porque não conheço quase nenhum, mas pegue um aí, se quiser, só para constar que lá também a Jornada se faz presente. Experimente a Jornada do ponto de vista da Sombra. Experimente num filme de terror, num filme baseado em fatos reais. Veja a Jornada do Herói numa grande reportagem de algum jornal televisivo.

Mas lembre-se, é só um guia. Depois de compreendido, pode ser burlado a vontade. Apesar de ortodoxo, Nolan dirigiu um filme chamado Amnésia que simplesmente buga todo o sistema operacional da Jornada, e é um filme que só tem Camaleão. No seriado Lost o Mundo Especial (a ilha) é apresentado antes do Mundo Comum (os flashback dos personagens). No seriado Flashforward um flash do futuro (Provação) é apresentado no Ato I. O Tarantino adora picotar seus filmes e contar as histórias de um modo não linear, o que muda drasticamente o posicionamento dos estágios da Jornada dentro da narrativa na forma que é apresentada. Em outras palavras, dá para fazer o que você quiser na ordem que quiser usando apenas o que desejar.

Até!

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